Nem todos estão no mesmo barco
É frequente ouvirmos líderes afirmar, com convicção, que "estamos todos no mesmo barco". No entanto, em muitas organizações, esta afirmação não passa de um slogan. A realidade revela que há quem navegue no convés, protegido e recompensado, e há quem continue a remar sem nunca ver o seu esforço reconhecido.
"Então, viste o que me faz rir? Já está na conta!", disse António Jacinto, com um sorriso de quem acreditava estar a partilhar uma boa notícia. Miguel Francisco olhou para ele, intrigado; do que estás a falar? António Jacinto repetiu a frase, convencido de que o colega de equipa compreenderia de imediato. Mas o silêncio que se seguiu revelou uma realidade inesperada. Miguel não fazia ideia do que ele queria dizer. Foi nesse instante que ambos perceberam uma verdade simples, mas profundamente reveladora: afinal, não estavam no mesmo barco.
Quantas vezes acontece exatamente o mesmo dentro das organizações? Fala-se de espírito de equipa, de união e de pertença, mas a realidade é bem diferente. Enquanto alguns conhecem antecipadamente as decisões, beneficiam de oportunidades reservadas ou recebem gratificações fora dos critérios estabelecidos, outros descobrem tudo ao mesmo tempo que o restante grupo. Uns navegam com privilégios; outros limitam-se a remar. É frequente ouvirmos líderes afirmar, com convicção, que "estamos todos no mesmo barco". A frase soa bem, inspira confiança e transmite a ideia de unidade. No entanto, em muitas organizações, esta afirmação não passa de um slogan.
A realidade revela algo bem diferente: há quem navegue no convés, protegido e recompensado, e há quem continue a remar sem nunca ver o seu esforço reconhecido. Uma cultura organizacional não se destrói apenas por grandes escândalos. Começa a deteriorar-se quando as regras deixam de ser iguais para todos. Quando os critérios são substituídos por conveniências. Quando os bónus, as gratificações ou os privilégios deixam de premiar o mérito e passam a recompensar a proximidade. Nesse momento, a liderança deixa de servir a instituição e passa a servir interesses particulares.
Nenhuma organização perde credibilidade de um dia para o outro. O declínio ético instala-se de forma silenciosa, através de pequenas decisões que parecem inofensivas. Uma exceção aqui, um benefício ali, uma regra contornada para favorecer alguém "de confiança". O problema nunca é uma decisão isolada; é a repetição que a transforma em cultura. A maior ilusão de algumas lideranças é acreditar que estão a construir lealdade quando, na verdade, estão apenas a alimentar dependências. Confundem fidelidade pessoal com compromisso organizacional. Esquecem-se de que colaboradores podem demonstrar obediência por interesse ou receio, mas apenas demonstram verdadeiro compromisso quando acreditam que a organização é justa.
A liderança não se mede pela capacidade de distribuir privilégios. Mede-se pela coragem de tomar decisões que resistem ao escrutínio, mesmo quando isso significa contrariar interesses próximos. A ética não é um discurso para os momentos de celebração; é um exercício diário que se revela precisamente quando ninguém está a observar. Há líderes que chegam ao cargo pela sua competência técnica, mas nunca desenvolvem a mentalidade exigida para o exercer. Continuam a tomar decisões com base nas relações pessoais, na necessidade de controlo ou na procura constante de validação. O cargo mudou, mas a forma de pensar permaneceu exatamente a mesma. E uma liderança nunca será maior do que a mentalidade de quem a exerce.
A questão não está apenas na atribuição de um prémio fora dos critérios ou de uma gratificação sem fundamento. A verdadeira questão é a mensagem que essa decisão transmite a toda a organização. Cada privilégio injustificado comunica que existem colaboradores de primeira e de segunda linha. Cada exceção injusta diz aos restantes que o desempenho deixou de ser o caminho para o reconhecimento. Quando isto acontece, o mérito perde valor, a confiança desaparece e a motivação transforma-se em conformismo.
As organizações não adoecem por falta de talento. Adoecem quando o talento deixa de acreditar que vale a pena dar o seu melhor. É nesse momento que os melhores profissionais começam a procurar outros desafios, enquanto permanecem aqueles que aprenderam que, para crescer, é mais importante agradar do que contribuir. Talvez seja tempo de deixarmos de perguntar se todos estão no mesmo barco.
A pergunta mais importante é outra: o líder está a conduzir a embarcação para o bem de todos ou apenas a reservar os melhores lugares para os seus aliados? Porque, no fim, uma organização nunca será mais ética do que a consciência de quem a lidera. E nenhuma liderança deixa um verdadeiro legado quando troca a justiça pela conveniência e a integridade pela proximidade.










