Cortes na ajuda deixam África para trás nas metas do ODS
Para acelerar progressos, é essencial colmatar um gap anual de financiamento estimado em 4 biliões USD, alerta a ONU, num contexto em que a ajuda ao desenvolvimento caiu 23,1%. África, uma das regiões mais longe de erradicar a pobreza extrema, é a mais afectada por cortes na ajuda, que em 2024 representou 3% do PIB.
A quatro anos do prazo, só 36% das 139 metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão no bom caminho ou a apresentar progressos moderados, quase metade (49%) avança muito lentamente e 15% regrediram em relação aos níveis de 2015, revela um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), que passa em revista os progressos alcançados na última década e os obstáculos que impedem a progressão da marcha, com África Subsariana a ver erguida mais uma barreira por ser a região mais afectada nos cortes na ajuda ao desenvolvimento.
"O progresso continua a ser desigual e insuficiente. Sem um esforço decisivo para ampliar rapidamente o que funciona, a promessa dos ODS corre o risco de se tornar inatingível", sublinha a ONU, num comunicado divulgado terça-feira, onde a organização evidencia "ganhos mensuráveis" em todos os objectivos, desde a sua adopção em 2015, graças a "investimentos contínuos, políticas sólidas e a cooperação internacional". Trilogia que permitiu "melhorar a vida de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo" e que originou uma base de dados global, com mais de 3,2 milhões de pontos em quase todos os indicadores, "uma conquista importante e muitas vezes negligenciada", que permitiu aos "países identificar onde o progresso está a acelerar, onde persistem as lacunas e que políticas estão a produzir resultados".
Apesar de o mundo estar aquém no alcance das metas de desenvolvimento sustentável, devido a "crises sobrepostas e um crescente défice de financiamento", estimado pela ONU em 4 biliões USD anuais, há conquistas a assinalar. Quase mil milhões de pessoas obtiveram acesso a água potável em segurança e 1,2 mil milhões a saneamento. A electricidade chega agora a 92% da população mundial. O acesso à internet aumentou consideravelmente, de 40% para 74%. A protecção social abrange mais de metade da população global pela primeira vez na história. E a maioria das regiões estará perto de erradicar a pobreza extrema até 2030, com excepção de África Subsariana, do Médio Oriente e Norte de África e da Oceânia (excluindo a Austrália e a Nova Zelândia).
"Mais de uma década de implementação mostrou o que é possível", declarou Li Junhua, subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Económicos e Sociais. A tarefa agora é "ampliar o que funciona, com a urgência, o investimento e a cooperação necessários para cumprir a promessa da Agenda 2030", sendo necessário "acelerar a transição energética, aproveitar as tecnologias de ponta, incluindo a inteligência artificial, para o desenvolvimento sustentável, promover a igualdade de género como uma prioridade transversal e reforçar a cooperação multilateral".
Sem espaço de manobra
Para acelerar os progressos, nesta recta final, é, pois, "essencial colmatar a lacuna de financiamento anual dos ODS, de aproximadamente 4 biliões de dólares, através do Compromisso de Sevilha e da reforma da arquitectura financeira internacional", defende a ONU, num contexto em que a ajuda oficial ao desenvolvimento, incluindo a da extinta agência de ajuda dos EUA, caiu 23,1% em 2025, um recorde histórico, que a fez regressar a níveis próximos dos de 2015.
No caso de África, a "região do mundo que registou a maior dependência da ajuda", representando 3% do PIB em 2024, o impacto dos cortes "são profundos, amplos e impulsionados por doadores - deixando as autoridades com pouca margem de manobra", segundo um artigo de quatro técnicos do...











