Patriotismo por decisão
Confundir crítica com antipatriotismo é normalmente sinal de insegurança institucional. Quem tem confiança no trabalho que faz não teme o escrutínio. Explica decisões. Mostra resultados. Aceita o contraditório. O debate público não enfraquece instituições, melhora-as. O verdadeiro risco para o País não está em quem questiona decisões.
Há uma nova moda institucional em Angola. Sempre que alguém questiona uma decisão errada, um concurso mal explicado, uma gestão duvidosa ou uma opção claramente falhada de um dirigente público, já não se responde com factos, números ou argumentos. Responde-se com patriotismo. Ou melhor, com uma cu riosa versão de patriotismo administrativo: "estão a atacar a ins tituição", "estão a descredibilizar o Estado", "não podemos fragilizar os órgãos nacionais".
Em casos mais dramáticos, quase parece que criticar um PCA, um ministro ou um director nacional equivale a um atentado contra a soberania nacional. É um argumento particularmente conveniente. Sobretudo porque permite transformar incompetência em causa patriótica e blindar decisões humanas com a bandeira nacional. O problema é que, normalmente, quem mais utiliza esta narrativa é precisamente quem menos distingue instituições de pessoas. Quando lhes convém, as instituições desaparecem e dá-se lugar ao culto da personalidade. Multiplicam-se os elogios excessivos ao "visionário", ao "líder incansável", ao "arquitecto", ao "timoneiro", ao "pai da transformação", como se os organismos públicos fossem extensões biográficas dos seus dirigentes e não estruturas permanentes do Estado.
Mas, curiosamente, quando surgem críticas, já não se pode tocar na pessoa porque isso seria atacar a instituição. É uma espécie de milagre administrativo: nos sucessos, o mérito é pessoal, nos fracassos, a responsabilidade dilui-se no patriotismo institucional. As institui ções fortes não se constroem protegendo os dirigentes da crítica. Constroem-se garantindo regras, transparência, responsabilização e continuidade independentemente de quem ocupa temporariamente os cargos. Os dirigentes passam.
As instituições ficam. Ou pelo menos deviam ficar. As sociedades mais sólidas são precisamente aquelas onde as instituições sobrevivem aos líderes, aos partidos e às crises. Funcionam porque há mecanismos de controlo, avaliação e fiscalização. Porque os erros são discutidos publicamente. Porque os responsáveis podem ser criticados sem que isso seja tratado como "traição" nacional.
Aliás, confundir crítica com antipatriotismo é normalmente sinal de insegurança institucional. Quem tem confiança no trabalho que faz não teme o escrutínio. Explica decisões. Mostra resultados. Aceita o contraditório. O debate público não enfraquece instituições, melhora-as. O verdadeiro risco para o País não está em quem questiona decisões. Está em quem acredita que os cargos públicos devem funcionar sem avaliação, sem contraditório e sem responsabilização. Está em quem transforma hierarquia em verdade absoluta e lealdade pessoal em critério de promoção.
Talvez seja precisamente aí que reside o maior desconforto de alguns dirigentes perante a crítica, à meritocracia obriga à comparação. E a comparação nem sempre é simpática.













