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Opinião

Zacarias Kamwenho e a Geometria do Ondjango - Economia, palavra e casa comum

CONVIDADO

Para Kamwenho, Angola não é apenas território ou aparelho estatal; é uma casa ferida por lutos, silêncios e desconfianças históricas. Por isso, a reconstrução nacional não se mede apenas por estradas, receitas, investimentos ou estatísticas. Uma nação pode crescer sem se reconciliar, enriquecer sem se humanizar e possuir Estado sem reencontrar a casa. É neste horizonte que o Ondjango se aproxima da Economia de Comunhão.Dom Zacarias Kamwenho morreu na sexta-feira, 29 de Maio, aos 91 anos de idade.

01. DA OIKONOMIA AO ONDJANGO

A casa como princípio civilizacional

A palavra economia nasce do gre go antigo (oikonomía), formada por (oîkos) - casa e património doméstico - e (nómos) - lei e ordem. Aproxima-se ainda de (né mō), verbo que significa distribuir, repartir e administrar. No seu sentido inaugural, a economia não era liturgia do lucro, idolatria da moeda ou engrenagem da acumulação; era a arte de governar a casa, ordenar os bens, repartir responsabilidades e impedir que a opulência de poucos se erguesse sobre a indigência de muitos. No horizonte Umbundo, esta raiz ressoa no Ondjango, de rivado de Ondjo y"Ohango: Ondjo - casa, pátria, mátria, lugar de pertença - e Ohango - conversa, diálogo, parlamento, escola da palavra. O Ondjango é a casa onde se "mastiga" a palavra, se reúne para escutar, discernir, reconciliar-se e decidir em comum. Neste encontro, Oikonomia e Ondjango convergem na organização da casa comum. A primeira ordena os bens; o segundo ordena a palavra. A economia pergunta como repartir os meios; o Ond jango pergunta como discernir os fins. Ambos existem para que a casa não se despenhe na anomia, no desperdício e na injustiça.

02. KAMWENHO

O Ondjango como pedagogia da paz e da comunhão

"Eu sou porque nós somos." Sabedoria Ubuntu

Dom Zacarias Kamwenho - pri meiro eclesiástico a receber o Prémio Sakharov, segundo no espaço lusófono, depois de Xanana Gusmão, e segundo áfrica no, depois de Nelson Mandela - conferiu ao Ondjango uma densidade ética, pastoral e política singular.

No seu pensamento, o Ondjango não é folclore nem relíquia aldeã, mas arquitectura de reconciliação, pedagogia da paz e gramática africana da comunhão. Para Kamwenho, Angola não é apenas território ou aparelho estatal; é uma casa ferida por lutos, silêncios e desconfianças históricas. Por isso, a reconstrução nacional não se mede apenas por estradas, receitas, investimentos ou estatísticas.

Uma nação pode crescer sem se reconciliar, enriquecer sem se humanizar e possuir Estado sem reencontrar a casa. É neste horizonte que o Ondjango se aproxima da Economia de Comunhão: a riqueza deixa de ser cidadela privada para se tornar fraternidade; a empresa abandona a lógica extractiva e assume responsabilidade; o mercado pode converter-se em reciprocidade.

A abundância sem partilha torna-se uma acusação moral. A economia sem comunhão degenera em cálculo sem alma; a palavra sem escuta torna-se ruído; a política sem reconciliação reduz--se à administração da distância.

03. CIRCULARIDADE

A geometria da inclusão

A comunidade começa quando o último entra no círculo. Dom Zacarias Kamwenho

A circularidade do Ondjango ex prime a inclusão. O círculo não possui trono, pedestal ou periferia condenada ao mutismo. Nele, todos se voltam para o centro, tornam-se visíveis e participam da palavra. Em linguagem geométrica: (x − a)² + (y − b)² = r² Cada membro da comunidade encontra-se simbolicamente à mesma distância do centro. Ninguém é relegado às margens da escuta nem reduzido à sombra social. A circularidade desfaz a soberba hierárquica e democratiza a presença. Esta geometria ensina que o desenvolvimento só é autêntico quando inclui os pobres, os jovens, os pequenos produtores e os territórios esquecidos. Economia circular, aqui, é reintegração de pessoas, memórias e esperanças. No Ondjango, ninguém é resíduo humano; nin guém é excedente da história.

04. CENTRALIDADE

O bem comum como coração da casa

Onde falta o bem comum, a prosperidade torna-se pilhagem elegante. Dom Zacarias Kamwenho

O segundo princípio é a centralidade. No círculo, o centro pode ser figurado por: C = (0,0). No Ondjango, o centro não é tirania, mas memória, fogo, ancestralidade, palavra e unidade. Não absorve o círculo; orienta-o. Na Economia de Comunhão, esse centro chama-se bem comum: dignidade humana, justiça social, fraternidade e responsabilidade partilhada. Kamwenho compreendeu que uma nação sem centro ético pode multiplicar receitas e empobrecer a alma; exibir crescimento sem desenvolvimento; ter empresas sem comunhão; ter Estado sem casa. Quando a economia se afasta da pessoa, converte-se em periferia moral. O lucro sem justiça torna-se ídolo; o investimento sem fraternidade, engenharia da desigualdade; o crescimento sem comunhão, ornamento estatístico sobre a ruína dos vínculos.

05. SIMETRIA Reciprocidade e responsabilidade partilhada

Nenhuma casa resiste quando alguns habitam o tecto e outros dormem nos escombros. Dom Zacarias Kamwenho

O terceiro princípio ondjangológico é a simetria, expressa pela propriedade: f(−x) = f(x). Na geometria, a simetria exprime equilíbrio, proporção e correspondência.

No Ondjango, traduz-se a reciprocidade ética: cada direito convoca dever; cada posse exige responsabilidade; cada autoridade requer prestação de contas.

A Economia de Comunhão vive desta simetria moral: quem possui deve partilhar; quem dirige, servir; quem governa, responder; quem lucra, reinvestir em dignidade. Sem reciprocidade, a economia torna-se rapina regulamentada; a política, teatro de legitimidades ocas; a comunidade, ajuntamento de interesses hostis. Em termos económicos, esta reciprocidade traduz-se em responsabilidade social empresarial, inclusão produtiva, confiança institucional, justiça distributiva e desenvolvimento territorial.

06. A CASA ANGOLANA QUE AINDA NOS ESPERA

"Aos 91 anos, já não me habita a pressa inaugural dos começos, nem me seduz a ilusão dos atalhos." Dom Zacarias Kamwenho, postfácio in O Envelhecimento Activo e Saudável em Angola, de Maria da C. L. M. L. Neto, 21.04.2026.

O Ondjango, lido a partir de Kamwenho, é mais do que uma instituição cultural: é metafísica social da escuta, teoria prática da casa comum e gramática angolana da Economia de Comunhão.

Nele, a economia regressa à sua nascente mais nobre: administrar a casa para que ninguém seja expulso da mesa, da palavra, do pão e da esperança. Nenhuma comunidade se salva pela mudez dos seus membros, pela arrogância dos seus centros, pela solidão dos seus pobres ou pela abundância blindada dos seus privilegiados.

Uma casa só é casa quando todos podem entrar; uma economia só é humana quando a riqueza deixa de ser muralha e se torna ponte. Kamwenho legou a Angola uma arquitectura moral: reconstruir a economia pela palavra, a política pela escuta, a pastoral pelo Ondjango, a riqueza pela partilha e a nação pela comunhão. Quando essa aurora chegar, Angola não terá apenas crescimento: terá destino. Não terá apenas Estado: terá casa. Não terá apenas memória de feridas: terá a claridade de uma comunhão finalmente habitada. Isto é Ondjango!

*Dom Zacarias Kamwenho morreu na sexta-feira, 29 de Maio, aos 91 anos de idade.

Ortigo foi publicado na Edição 878 do Expansão, sexta-feira, dia 29 de Maio de 2026, antes da sua morte.

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