Por que o dinheiro falta em Janeiro? Uma análise financeira e comportamental
Janeiro expõe aquilo que o resto do ano esconde: a fragilidade da nossa relação com o dinheiro. Transformar o "Janeiro do aperto" num ponto de viragem exige mais do que aumento de rendimento. Exige mudança de comportamento, educação financeira e uma relação mais consciente com o dinheiro.
Janeiro chega todos os anos com a mesma sensação para muitas famílias e empresas angolanas: contas acumuladas, pouco rendimento e uma clara sensação de aperto financeiro. O chamado "Janeiro do aperto" não é apenas uma percepção social - é um fenómeno económico e comportamental recorrente, previsível e, em grande parte, evitável.
Do ponto de vista financeiro, o problema começa, quase sempre, em Dezembro. O último mês do ano concentra um volume anormal de despesas extraordinárias: festividades, viagens, apoio familiar alargado, consumo emocional e compromissos sociais que pressionam o orçamento.
Estudos internacionais sobre finanças comportamentais mostram que, em períodos festivos, as pessoas tendem a gastar entre 20% e 30% mais do que a sua média mensal, impulsionadas por factores sociais e emocionais, e não por planeamento racional. Em economias com baixo nível de poupança, como é o caso da maioria das famílias angolanas, esse excesso cobra um preço imediato no mês seguinte.
Janeiro, por outro lado, chega com despesas fixas e inadiáveis, propinas escolares, impostos, taxas administrativas, rendas, transporte e alimentação pressionam um orçamento já fragilizado. Para muitos agregados familiares, mais de 70% do rendimento mensal está comprometido com despesas fixas, o que deixa pouca margem para absorver choques financeiros. Quando esse choque vem de um Dezembro mal planeado, o resultado é a falta de liquidez no mês de Janeiro.
Nas empresas, sobretudo nas pequenas e médias, o cenário não é muito diferente. A quebra do consumo em Janeiro afecta directamente o volume de negócios, enquanto que os custos operacionais mantêm-se constantes, nomeadamente, salários, impostos e fornecedores continuam a com prazos de pagamentos, o que cria uma pressão sobre a tesouraria. Em contextos de fraca gestão de caixa, Janeiro transforma-se num mês de sobrevivência financeira para as empresas e não de crescimento. Empresas sem planeamento de tesouraria ou reservas de caixa entram num ciclo de stress financeiro, recorrendo a crédito caro ou atrasando compromissos, o que fragiliza ainda mais a sua sustentabilidade.
No entanto, tratar o "Janeiro do aperto" apenas como um problema de rendimento é um erro. A raiz do problema é também comportamental. A economia comportamental demonstra que os indivíduos tendem a privilegiar recompensas imediatas e a subestimar dificuldades futuras - um fenómeno conhecido como "viés do presente". Sabemos que Janeiro será financeiramente exigente, mas mesmo assim gastamos excessivamente em Dezembro, convencidos de que "depois se resolve". Este comportamento é agravado por baixos níveis de literacia financeira.
A ausência de planeamento anual, de fundos de emergência e de hábitos regulares de poupança cria uma relação reactiva com o dinheiro. Em vez de decisões estratégicas, predominam decisões emocionais, especialmente em períodos socialmente carregados como o fim de ano. Mas o problema não é apenas financeiro. É também comportamental.
Em Angola, onde o rendimento médio é pressionado pela inflação e pela volatilidade económica, esta realidade é ainda mais sensível. Sem reservas financeiras, qualquer desequilíbrio transforma-se rapidamente numa crise doméstica. O impacto macroeconómico também é relevante. Janeiro tende a ser um mês de contracção do consumo, menor circulação de dinheiro e maior procura por crédito de curto prazo. Isso aumenta o endividamento das famílias, eleva o risco de incumprimento e cria um ciclo vicioso de fragilidade financeira que se prolonga ao longo do ano.
As consequências ultrapassam o plano individual, o endividamento das famílias cresce, o que eleva o risco de incumprimento e pressiona o sistema financeiro. Para a economia, isso significa um início de ano mais lento, com menor dinamismo e maior vulnerabilidade. Há também um impacto psicológico relevante.
A falta de dinheiro em Janeiro gera ansiedade, reduz a produtividade, afecta a tomada de decisões e cria um ciclo de stress financeiro que pode se prolongar por vários meses. Este efeito invisível tem custos reais, tanto para as famílias como para as empresas. A boa notícia é que o "Janeiro do aperto" não é inevitável. Trata-se, acima de tudo, de um problema de planeamento e disciplina financeira.
A criação de um fundo de emergência - mesmo reduzido -, a distribuição das despesas sazonais ao longo do ano, a definição de limites claros de consumo em Dezembro e a adopção de um orçamento anual são medidas simples, mas eficazes. Para as empresas, uma gestão de tesouraria mais conservadora, com reservas de liquidez e planeamento de fluxos de caixa sazonais, pode fazer a diferença entre estabilidade e crise.
Em última análise, Janeiro expõe aquilo que o resto do ano esconde: a fragilidade da nossa relação com o dinheiro. Transformar o "Janeiro do aperto" num ponto de viragem exige mais do que aumento de rendimento. Exige mudança de comportamento, educação financeira e uma relação mais consciente com o dinheiro.
O problema não está no calendário. Está nas escolhas feitas no ano que finda. Janeiro apenas apresenta a factura.
*Euriteca Nunes André , Economista, psicóloga, analista financeira e de investimentos














