Projectos Florestais de Carbono em África | Uma agenda "Business-Driven" para criar activos verdes
Com a arrecadação global da precificação do carbono a ultrapassar os 100 mil milhões USD, África posiciona-se como a nova fronteira dos activos ambientais. Contudo, a verdadeira riqueza não reside apenas no volume de créditos emitidos, mas na qualidade técnica e na retenção de valor nas cadeias locais. Da necessidade de um governance robusto à urgência de financiar o risco de certificação, explore o racional técnico que pode transformar a florestação e a reflorestação nos novos motores da diversificação económica e do emprego rural qualificado em Angola.
O debate sobre mercados de carbono em África está a entrar numa fase de maturação. Já não se trata apenas de saber se o continente deve participar nesse mercado, mas como estruturar projectos que criem valor económico, ambiental e social de forma sustentável.
Neste contexto, os Projectos Florestais de Carbono assumem relevância estratégica, sobretudo quando o foco se desloca da mera preservação de florestas existentes para a criação de novos activos florestais, através de florestação e reflorestação, com os benefícios económicos e ambientais que daí poderão advir.
Projecto Florestal de Carbono compreende-se como sendo uma iniciativa estruturada que utiliza o poder das florestas para combater as mudanças climáticas, gerando créditos de carbono que podem ser comercializados no mercado global.
A lógica é baseada na capacidade das árvores de absorver o dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera através da fotossíntese, armazenando-o na biomassa (troncos, raízes, folhas) e no solo.
Como funciona na prática?
Um projecto desse tipo segue etapas rigorosas para garantir que o benefício ambiental seja real, consubstanciadas, em termos práticos, nas seguintes:
01. LINHA DE BASE | etapa em relação à qual é definido quanto carbono a área armazenaria se o projecto não existisse (e.g. se continuasse a ser desmatada ou se fosse uma área de pasto degradada). Ou seja, etapa na qual é efectuada a estimativa científica de quanto carbono a área continuaria a emitir se o projecto não fosse implementado.
02. ADICIONALIDADE | Esta etapa exige a prova de que a remoção ou conservação de carbono é um resultado directo do projecto, demonstrando que estas actividades não ocorreriam de forma espontânea ou obrigatória sem o incentivo financeiro gerado pelos créditos. É o teste que garante que o capital está a financiar um benefício ambiental novo e incremental.
03. MONITORAMENTO E VERIFICAÇÃO | Iniciativa que recai para entidades independentes sobre as quais compete proceder à medição e a certificação (inclusive com recurso a satélites e inteligência artificial, em tempo real) de que as árvores continuam lá e que o carbono está a ser efectivamente retido.
04. EMISSÃO DE CRÉDITOS | Cada tonelada de CO2 que deixou de ser emitida ou foi removida equivale a 1 crédito de carbono, que pode ser vendido para corporações que precisam de compensar as emissões que decorrem das suas operações ou actividades.
África detém uma das maiores reservas globais de terras com potencial de restauração (e porque não, de implantação) florestal. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturais de financiamento ao desenvolvimento, diversificação económica e adaptação climática. A convergência entre estes factores torna os projectos florestais de carbono um instrumento de finanças climáticas aplicadas, capaz de mobilizar capital privado internacional para investimentos produtivos no território africano.
As principais vertentes dos projectos florestais de carbono
De forma sintética, os projectos florestais de carbono enquadram-se em quatro grandes vertentes técnicas, reconhecidas pelos principais standards internacionais: 01. REDD+ (Redução de Emissões por reversão da Desflorestação e da Degradação Florestal) Focada na conservação de florestas existentes, esta vertente procura evitar emissões futuras associadas à perda de cobertura florestal. Embora relevante, apresenta limitações em termos de escala incremental e está frequentemente associada a riscos de "carbono evitado" que se apresentam como difíceis de quantificar.
02. Gestão Florestal Melhorada (Improved Forest Management - IFM)
Incide sobre áreas florestais produtivas, introduzindo práticas mais eficientes da sua gestão. É comum em economias com sector florestal industrial mais desenvolvido.
03. Florestação (Afforestation)
Consiste na criação de florestas em áreas historicamente não florestadas. Esta vertente representa uma oportunidade clara para países africanos com extensas áreas degradadas ou subutilizadas, permitindo gerar remoções reais de CO₂, com elevado grau de impacto adicional em termos de escala incremental.
04. Reflorestação e Restauração Florestal (Reforestation & Restoration)
Visa recuperar áreas anteriormente florestadas, mas degradadas ou desmatadas. Esta vertente alia benefícios climáticos, recuperação de solos, regulação hídrica e potencial produtivo futuro (madeira, agro-floresta, serviços eco-ssistémicos).
Importa salientar que projectos de florestação e reflorestação permitem estruturar modelos híbridos, combinando:
Receitas de créditos de carbono;Cadeias de valor florestais sustentáveis;Emprego rural qualificado;E impactos mensuráveis em ESG.Desde 2020 que o número de plantações de árvores cadastradas nas entidades privadas de certificação de carbono aumentou bastante (veja o gráfico abaixo). Além do significativo aumento no número de projectos, é importante observar que o "tamanho" médio dos projectos também está a aumentar em termos de redução estimada de emissões. Isso sugere que os projectos estão a crescer em escala...
António Silva, Especialista em Governance, Risk & Compliance














