Fábrica da Biocom suspende operações por falta de matéria-prima
Insuficiência de matéria-prima devido a condições climatéricas desfavoráveis força paragem na operação durante três meses. Empresa prevê atingir pico da produção em 2020.
A produção da Biocom, em Malanje, vai parar no início do próximo ano durante cerca de três meses, por falta de matéria-prima, revela o responsável das relações institucionais do projecto de produção de energia, etanol e energia eléctrica.
Falando a jornalistas no âmbito de uma visita ao projecto, Luís Bogorro explica que a previsão de colheita para esta época era de 35,9 mil toneladas de cana, mas a ocorrência de condições climatéricas desfavoráveis impediu que a meta fosse atingida.
"Os fenómenos naturais, em concreto as chuvas, que caíram um pouco mais do que estava previsto, levaram a cana a absorver muita humidade, o que acelerou o seu crescimento e a florescência", afirma o responsável, adiantando que as alterações na matéria-prima lhe retiraram as qualidades adequadas para uso na fábrica.
O cenário vai conduzir não apenas à suspensão da produção de energia eléctrica - com base na queima de cana-de-açúcar -, mas também de açúcar propriamente dito, até Março do próximo ano, altura em que deverá ocorrer uma nova colheita.
O problema esteve, aliás, na origem do adiamento da inauguração oficial do projecto, que estava agendada para o Dia do Herói Nacional (17 de Setembro) e que deveria ter sido realizada pelo Presidente da República. De acordo com Luís Bogorro, para o seu pleno funcionamento, a unidade carece de cerca de 2,2 milhões de toneladas de cana, estando previsto que uma parte venha de fazendas externas ao projecto.
"Estamos a trabalhar com potenciais fornecedores de cana os empresários locais", afirma. Primeiras 20 mil toneladas já no mercado A Biocom, que resulta de uma parceria entre a Sonangol (20%), o grupo Cochan (40%) e a Odebrecht Angola (40%), iniciou a produção experimental em 2014, e, segundo responsável, as primeiras 20 mil toneladas de açúcar cristalino com a marca Kapanda "já estão no mercado".
Luís Bogorro garante que este produto, posto à venda em Junho passado, já foi todo comercializado junto de pequenos e médios players. A empresa deverá atingir em 2020 a produção máxima de 256 mil toneladas de açúcar, fruto de um investimento global estimado em 750 milhões USD, dos quais cerca de metade já foi aplicada. A Biocom, considerada pioneira em Angola, enquadra-se no processo de diversificação da economia e de valorização da produção interna, para a redução das importações.
Instalado no Pólo Agro-Industrial de Capanda, município de Cacuso, o projecto ocupa uma área de 42.500 hectares, sendo 36.921 hectares destinados a desenvolvimento agrícola e o restante a preservação permanente da vegetação, afirma, por seu turno, Fernando Koch, responsável pela Comunicação de Pessoas e Organizações da Biocom.
Biocom esclarece acusação de trabalho de escravo Entretanto, Koch reafirma que as acusações de que a Odebrecht Angola foi alvo no Brasil -, e pelas quais foi condenada, no mês passado, ao pagamento de indemnizações de cerca de 50 milhões de reais (1,7 mil milhões Kz) - são "inverdades" resultantes de "má-fé" da justiça brasileira.
Num comunicado enviado ao Expansão, a empresa garante a "inexistência de condições degradantes de trabalho ou análogas à escravidão", e sublinha que o projecto da Biocom disponibiliza aos trabalhadores "alojamento, assistência médica, área de lazer com academia, polidesportivo e sala de jogos, além de área de vivência com cabinas telefónicas para ligações nacionais e internacionais gratuitas".
"A alimentação fornecida sempre foi de extrema qualidade e preparada por empresas terceirizadas especializadas, garantindo bons padrões de higiene, limpeza e conservação de alimentos e bebidas", esclarece o documento, sublinhando que as condições de trabalho nas obras da Biocom "sempre foram fiscalizadas por autoridades angolanas que nunca encontraram qualquer problema quanto às normas de medicina, higiene e segurança do trabalho".
"Não houve tráfico internacional de mão-de-obra. Nenhum trabalhador foi enviado para prestar serviços em Angola sem a documentação necessária, conforme documentalmente comprovado nos autos", acrescenta o comunicado, que recorda que "a Biocom foi declarada obra de interesse público relevante."
Segundo Fernando Koch, na safra 2015/2016, o projecto envolveu 2.847 trabalhadores, havendo angolanos a actuar em todos os níveis - incluindo cargos de coordenação, liderança e equipas operacionais.











