"Algumas pessoas da classe média compravam quatro livros por mês, hoje compram um ou dois"
A perda de poder de compra está a afastar os angolanos das livrarias e há leitores que passaram a comprar apenas um livro em três meses. José Neto, CEO da Livraria Barquinho, aponta também os impostos e as dificuldades cambiais como factores que encarecem os livros. Considera que o País precisa de jovens capazes de pensar por si próprios e encontrar soluções para os problemas nacionais.
Sendo licenciado em Relações Internacionais, mestre em Direcção Estratégica e doutorando em Ciências Sociais, quando começou a interessar-se por literatura e depois pela gestão da Livraria Barquinho?
Resolvi entrar para o mundo da literatura há muitos anos. A Livraria Barquinho existe há cerca de 32 anos e foi criada pela Josened, que pertenceu à Missão Suíça, para comercializar livros cristãos. Entre 2011 e 2012, a Missão Suíça resolveu fechar a livraria devido a alguns problemas de gestão. Na época, estava em Portugal a fazer o Doutoramento. Quando me apercebi, disse que não podiam fechar. Então, decidi viajar de Portugal para a Suíça e negociar a Livraria. Eles disseram: "Mas o que vamos fazer?" Eu respondi: "se vocês não sabem o que fazer, entreguem- -ma." Estou há cerca de 13 anos na gestão integral da livraria. No começo, pensei que seria fácil e que podia administrar e seguir com os meus estudos, mas não foi assim.
Quais foram os principais desafios em conciliar os estudos e a gestão da Livraria Barquinho?
Quando cheguei a Angola, enfrentei problemas atrás de problemas, muito ligados às finanças e aos fornecedores. Percebi que não dava para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. No mesmo período, o reitor da universidade escreveu-me e disse: "O tempo está a passar e o senhor está sempre ausente". Então, tinha de decidir entre os estudos e a gestão da Livraria e optei por dar uma pausa nos estudos e dedicar-me integralmente à Livraria.
Deixou o doutoramento para se tornar livreiro a tempo integral?
Sim! Lembro-me de que, na época, alguns professores disseram-me: "Olha, José Neto, nós enviamos pessoas para leccionar nas universidades em Angola, com o nível de mestrado, mas você está em Angola e não está na universidade a leccionar, porquê?" Respondi que não queria ser uma pessoa que se limita a ditar matérias, porque há, ainda hoje, muitos professores que ficam só à frente dos alunos a ditar, e não é isso que quero para os jovens angolanos.
















