"Vivo através da "zunga" do conhecimento, que é a minha maior riqueza"
Com uma carreira académica consolidada, formadora, professora, conferencista, e também poeta, Kanguimbo Ananás diz ser "zungueira" do conhecimento porque é a sua maior riqueza. E, motivada pela sua paralisia aos dois anos, é na escrita onde encontra uma forma de transformar as suas vivências em poemas.
Depois do livro "Nas Entranhas do Mar" lançado em 2022, agora surge o "Útero do Universo". Qual é a temática?
Sou um ser humano que olha para todos os fenómenos e para o ser e estar do indivíduo. É verdade que a água liga a vida, a ecologia, o ambiente, a anatomia, etc. É na anatomia que surge a obra que falava do corpo humano em forma de arte. Então, sou produto do corpo, devo valorizá-lo, e são essas energias que me tornaram nesta cidadã. Por outro lado, perdi um filho, vítima de drogas, há três anos e que estava nesse vício já há 20 anos. E, independentemente de dar a mão ao Nagrelha também vivi essa situação. As pessoas não acreditavam no Na grelha, mas casou-se, foi um esposo e pai exemplar.
Como mãe e psicóloga, acredito ser de grande importância abordar sobre esse tema na primeira pessoa.
Sim, sou psicóloga que vive a história de cada um, não sou psicóloga que vai ao hospital observar ou consultar, simplesmente os pacientes. Tenho vivências do meu filho, não o desprezei por ser "drogado". E, por essa razão, escrevi o livro "Útero do Universo".
É uma homenagem a ele?
Não necessariamente. É uma homenagem a todas as mulheres e aos homens, porque nós mulheres beneficiamo-nos dos homens. Há uma troca, na verdade, e temos que compreender isso. Não sou egocêntrica e valorizo muito os homens assim, como valorizo o meu pai. Faço Angola através da literatura, do trabalho social e da convivência com tóxico dependentes.
A maternidade é o apogeu do seu livro?
Sim, porque a imagem de um bebé envolvido numa bolsa me leva, a essa motivação ou espiritualidade na literatura. Não tenho uma fita métrica para medir o que faço. Vocês, enquanto amantes da literatura e leitores, poderão dizer o que é obra. Naturalmente que poderão fazer a crítica porque a arte não é uma linguagem directa, é uma linguagem subjectiva.
Quando foi escrito o livro?
Escrevi há seis anos. É um livro que me traz para o universo.
E vai lançar só após seis anos porquê?
Porque as folhas não andavam cá, estiveram na Alemanha e recebi-as a 30 de Junho de 2022. Entre tanto, acredito que é assim que se deve publicar. Não é, escreveu, e lançou logo a seguir sem ter um período de maturação.
A escolha da data tem um significado especial?
Sim, tem um grande significado. Faz 25 anos desde que lancei o meu primeiro livro e agora, vou lançar esse que tem a ver com a mulher. A imagem feminina, na verdade, surge como a Terra (o planeta), o útero que é a primeira habitação de cada um de nós. Daí surge o título, por que há essa interacção cósmica.
Como nascem os Poemas? De um pensamento, um som, uma imagem ou das suas vivências?
Nascem de um ambiente transversal. Certo dia enquanto dormia, veio-me uma imagem à mente, e não era uma imagem normal, porque parecia divina. E comecei a gritar, Deus, Deus, Deus! E voltei a dormir. Mas o sono deu continuidade ao sonho e resolvi acordar e ficar sentada por muito tempo. Por tanto, é assim que começo a escrever, às vezes. Junto à cama tenho a folha e a caneta, logo, a minha inspiração não tem explicação. Ela surge mesmo na escuridão e se não escrevo, evapora-se.
Entre as várias actividades que exerce - docente, escritora, psicóloga entre outras - como se define?
Gosto do que faço, porque cresci numa família numerosa de 14 fi lhos, em que todos tinham de trabalhar. Sinto-me bem em fazer o que faço. Por exemplo, gosto de cozinhar, lembro que em 2000 venci o concurso nacional de gastronomia e em 2014 o concurso internacional.















