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Angola

Projecto social substitui Estado e garante ensino gratuito a quase 2.000 crianças

CASA DE CAMINHO ANDRÉ LUIZ SOBREVIVE SEM FINANCIAMENTO PÚBLICO

O acesso ao ensino público continua a prejudicar uma boa parte das famílias angolanas, sobretudo as mais carenciadas, que à falta de escolas públicas não conseguem pagar escolas privadas. O País tem actualmente 4,5 milhões de jovens fora do sistema de ensino. Educação é fundamental para quebrar ciclos de pobreza.

Aos 7 anos, Isabel Figueiredo é uma de quase 2.000 crianças que encontrou no projecto social Casa Caminho André Luiz uma porta aberta para fugir ao abstencismo escolar. Na área onde reside não conseguiu vaga nas duas escolas públicas ali existentes e os fracos recursos financeiros da sua família impedem a entrada no ensino privado.

Uniformizada com a sua bata branca, a pequena Isabel Figueiredo tem um sonho: ser médica. E num país onde os sonhos não são fáceis de concretizar, sobretudo nas camadas mais desfavorecidas da população, é nesta escola localizada no município de Viana que está a esperança desta criança e da sua família de poder um dia quebrar o ciclo de pobreza. Este é apenas um retrato de milhares de jovens que ali têm passado desde 2008, quando Amélia Cazalma, então directora nacional do Turismo, deu início ao projecto que envolve 15 salas de aula que vão desde a iniciação até à 12ª classe, e que vive muito do trabalho voluntariado de 52 professores que ali dão aulas. Muitos desses professores são antigos estudantes da instituição.

"Em 2008 lutámos para criar a Casa de Caminho André Luiz, onde podíamos ajudar as pessoas. A formação profissional é o foco maior, no meu entender, para a redução da pobreza. Porque entendo que a redução da pobreza passa pela formação profissional", considera a mentora do projecto social.

Além da escola, o projecto contempla também uma clinica, que contou com o apoio de vários mecenas e que já atendeu milhares de pessoas daquela zona da capital do País. "É preciso dar dignidade, é preciso dar carinho. É preciso olhar para o outro e ter empatia, solidariedade. E foi essa a minha luta. Por isso trabalhamos nesses pilares: educação, saúde e formação profissional. Criar escola para tirar pessoas do analfabetismo.

Criar formação profissional para tirar pessoas da pobreza. E salvar vidas na clínica", referiu ao Expansão. Com o agudizar da economia nacional, especialmente nos últimos 10 anos, não tem sido fácil manter o projecto, que por vezes tem vivido dias difíceis.

Amélia Cazalma continua a bater a muitas portas e espera há largos anos por um apoio financeiro do Estado mas, apesar das várias promessas, esse apoio nunca se concretizou. "É muito pedido, a sensação que se dá é que nos estão a fazer favores. Mas não estão, o facto é que estamos a contribuir para que a população não tenha mais dificuldades. É só isso. Pois o que a instituição faz é apoiar o Estado", destacou. E, por isso, hoje a clínica está suspensa. "Como os médicos e o pessoal de saúde não eram pagos pelo Estado, era uma despesa muito grande para nós", disse a responsável.

Ensino especial apoia crianças

Foi então necessário escolher e, por isso, a escola vai-se mantendo. Aqui, também é dada especial atenção à inclusão, que permite que crianças com cuidados especiais também tenham sonhos, como é o caso de Estela Lázaro, de 17 anos, que frequenta a 3.ª classe. Ali, as crianças especiais recebem algumas aulas via online, dadas por professores brasileiros que também têm prestado apoio ao projecto, segundo avançou ao Expansão o director adjunto da escola, Isaías Pascoal.

Os professores locais foram os primeiros a serem formados com ferramentas para trabalharem com crianças especiais. A interacção com os professores brasileiros tem sido boa, ressaltou. "Descobrimos que tínhamos muitos alunos autistas. E com as aulas online e o nosso suporte aqui, já notamos melhorias no comportamento dos alunos.

Isaias Pascoal entrou neste projecto há quatro anos, quando concluiu o ensino médio e não recebe um salário, mas sim pequenas ajudas para conseguir levar o básico para casa. É o que acontece com a maioria dos 52 professores que ali dão aulas em "part-time" já que leccionam em outras instituições ou têm outras actividades.

"O professor vem para o projecto sem promessa de salário. Está aqui a prestar um serviço de caridade, voluntariado, sem receber salário. Agora, o que acontece é que a professora Amélia, às vezes, consegue bater a algumas portas e com a sua reforma, consegue um bónus para nos gratificar pelo empenho", ressaltou.

As aulas decorrem em três períodos: manhã, tarde e de noite. De manhã, a escola tem registados 776 alunos no ensino primário. De tarde são 620, que vão do primeiro ao segundo ciclo e de noite tem um universo de 310 alunos. A nível do ensino médio, a escola lecciona cursos de economia, ciências jurídicas, físicas e biológicas. "É nosso desejo que no próximo ano a escola se expanda e possamos abrir os cursos técnicos de enfermagem e informática", destacou.

Muitas crianças que frequentam a escola são provenientes de outros municípios vizinhos, como Cacuaco, Cazenga, Sambizanga e bairros vizinhos. Os alunos do ensino médio são alfabetizadores nas suas comunidades e cada alfabetizador tem 15 alunos sob controlo.

Face à falta de oferta do Estado, as famílias são obrigadas a recorrer a escolas e colégios privados, muitos deles com pouca qualidade, enquanto a outras resta apenas esperar ano após ano por uma vaga que raramente chega. É por isso que, segundo o Censo 2024, actualmente 4,5 milhões de crianças estão fora do sistema de ensino, sendo que 2,4 milhões são crianças dos 5 aos 11 anos.

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