Acção "inadequada" do governo ameaça mega-projecto da Total

Acção "inadequada" do governo ameaça mega-projecto da Total
Foto: D.R.

O governo moçambicano deu uma resposta "inapropriada" no início da insurgência em Cabo Delgado, permitindo que uma "seita religiosa" se transformasse num "grupo armado" que ameaça as populações no norte e o maior projecto de investimento no país, concluem investigadores do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), de Moçambique.

Perto de duas dezenas de organizações da sociedade civil moçambicanas exigiram, terça-feira, ao Presidente da República, Filipe Nyusi, que accione pedidos de ajuda internacional para travar os jihadistas, após ataques mortais à vila de Palma, na quarta-feira, dia 24, que levaram a Total a anunciar a suspensão das operações no projecto de gás natural, na ilha de Afundi, província de Cabo Delgado.

A União Europeia e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) ofereceram ajuda, em Janeiro, mas foi recusada. E, esta segunda-feira, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, declarou que os EUA estão "determinados" a apoiar o governo a combater os insurgentes em Cabo Delgado, onde a ONU assiste, em coordenação com as autoridades locais, as pessoas afectadas.

Cinco dias após a ofensiva a Palma, o ISIS reivindicou a autoria do ataque que atingiu o "coração" do mega-projecto de gás natural, avaliado em mais de 20 mil milhões USD. Em comunicado, o ISIS, ou autoproclamado Estado Islâmico, reclama o "assassinato de 55 elementos das Forças de Defesa e Segurança (FDS) e civis" e afirma ter o "controlo" de Palma", sede de distrito com 42 mil habitantes, junto à fronteira com Tanzânia.

O grupo, conhecido localmente como Al-Shabaab, cujas células religiosas foram estabelecidas por indivíduos tanzanianos, quenianos e moçambicanos que "frequentaram mesquitas de tendência salafista na Tanzânia", como referem dois investigadores do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Moçambique, assassinou dezenas de pessoas indefesas e destruiu infraestruturas do Estado. O jornal "Notícias" de Moçambique aponta a existência de, pelo menos, 12 cidadãos sul-africanos no grupo que atacou a vila de Palma, com base em notícia da Rádio Televisão Sul-Africana (SABC), o que "levanta preocupações" nos especialistas em segurança no país vizinho, muitos dos quais têm apelado à SADC para intervir, com vista a afastar a possibilidade de ataques terroristas na África do Sul ou noutros países da região.

Entre os moçambicanos cresce a perplexidade sobre a inoperância do Governo no combate aos jihadistas na região e sobre a recusa do Presidente Nyusi em aceitar ajuda internacional.

Além de África do Sul e Portugal, a SADC e a União Europeia ofereceram ajuda, mas o apoio tem sido negado. "O problema arrasta-se desde 2017, mas durante muito tempo não se falou no assunto. Os media estavam proibidos de publicar notícias sobre Cabo Delgado", disse uma fonte diplomática ao Expansão, a partir de Moçambique.

O silêncio dos meios de informação é fácil de constatar pelo escasso número de notícias sobre a violência armada no norte do país, apesar de alertas de académicos do IESE, que situam a origem do grupo Al-Shabaab numa seita religiosa que se instalou em Cabo Delgado, como "unidade militarizada", tendo partido para a "violência armada a 5 de Outubro de 2017".

(Leia o artigo integral na edição 618 do Expansão, de sexta-feira, dia 1 de Abril de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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