Estado tem de investir 7 mil milhões USD no transporte de gás
O País ainda não tem qualquer poço de gás não associado a produzir, mas o Governo acredita que as potencialidades são enormes. Coloca o gás como fundamental para o crescimento da economia, mas o plano refere que a médio prazo, o Estado tem de investir 7 mil milhões USD em infraestruturas de transporte.
O Plano Director do Gás Natural (PDGN), publicado em Diário da República no passado dia 21 de Março, define três períodos principais. O primeiro, de curto prazo, a cumprir até ao final de 2025, é essencialmente para a definição e criação das bases do mercado, incluindo os sectores energético, petroquímico, mineiro e residencial, bem como de um quadro legal que incentive o contínuo investimento e garanta o seu retorno. Prevê-se também que até ao final do ano se dê início ao desenvolvimento dos campos Quiluma e Maboqueiro e a produção do campo Sahan Lean Gás Conector (SLGC).
O segundo período, de 2026 a 2036, será de produção dos recursos de gás já descobertos na bacia do Baixo Congo (exemplo dos campos Quiluma e Maboqueiro, Longui e Forsithya), a expansão da rede de gasodutos e aceleração do desenvolvimento de campos de gás das bacias do Kwanza e Benguela. Já o terceiro, até 2050, será de consolidação do mercado local, tendo em conta a ligação de gasodutos aos sectores Residencial e Comercial.
Este plano assenta numa expectativa de que o País tem um potencial de gás a explorar e a produzir a curto, médio e longo prazo de 94,97 TFC (GIIP), que correspondem a 94,97 biliões de pés cúbicos, estimativa total do gás inicialmente existente nos reservatórios. O pé cúbico corresponde a 0,02831 m3, ou seja, aproximadamente 2,89 biliões m3. Se tivermos em linha de conta que a produção comercializada actual, volume de gás natural disponível para venda após processos de extracção e processamento, não chega aos 6 mil milhões m3, percebemos o quanto é ambicioso este pressuposto. Do valor total, o plano agora publicado explica que 38,74 TFC (GIIP) são considerados recursos descobertos e 56,23 TFC (GIIP) são recursos prospectivos. Ou seja, à espera de confirmação.
Em termos práticos o País ainda não tem a funcionar qualquer poço de gás não associado, o que só deve acontecer no início do próximo ano, através de um consórcio liderado pela Azule Energy, que tem como parceiros a Cabinda Gulf Oil, Sonangol E&P e TotalEnergies, orçado em 2,4 mil milhões de dólares, com previsão de atingir uma capacidade de 330 milhões de pés cúbicos padrão por dia (mmscf/d), num perímetro que compreende o desenvolvimento dos campos Quiluma e Maboqueiro. Aliás, a Azule é o operador mais dinâmico na produção de gás, estando a "recuperar" três poços que foram descobertos há anos atrás pela ENI.
Outros dos factores que fazem com que alguns especialistas contactados pelos Expansão considerem os números apresentados neste plano director como "excessivamente optimistas" ou "feitos com objectivos políticos", tem a ver com o facto de mesmo os valores apresentados como descobertas, na verdade, não poderem ser contabilizados como futuras produções. É necessário perceber se o gás pode ser retirado e utilizado. Um exemplo é o gás localizado no bloco 24 da Bacia de Benguela, já contabilizado no estudo, mas cuja primeira opinião dos geólogos vai no sentido de ser muito difícil produzir naquele local. Tal como acontece nos blocos 20 e 21 na bacia do Kwanza, onde os 9,22 TCF contabilizados necessitam de reavaliação, o que só irá acontecer quando se começar a perfurar.
De uma forma genérica, 55% do gás recolhido nas instalações petrolíferas é utilizado para injecção, 13% é usado como combustível nas plataformas, 7% é queimado e apenas 25% é entregue na fábrica da Angola LNG, de acordo com dados da Petrangola relativos ao ano passado. Se olharmos para os dados da Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANPG), durante o ano 2024 foram entregues à ALNG 243.826 MMSCFD (milhões de pés cúbicos), num ritmo crescente nos últimos meses, sendo que a capacidade instalada da fábrica é de pouco mais de 400 mil milhões de pé cúbicos, o que significa que o ano passado trabalhou a 61% do seu potencial. Este percentual aumentou nos dois primeiros meses de 2025, em Janeiro Angola LNG recebeu 81,5% das suas necessidades e em Fevereiro cresceu para 85,5%.
Por isso mesmo já se iniciou o debate sobre a construção de uma nova fábrica LNG, sendo que as opiniões dividem-se entre uma unidade com uma dimensão semelhante à que existe ou um modelo mais pequeno. Se olharmos para a dimensão projectada neste plano, certamente que a opção terá de ser por uma fábrica igual. Acrescentar que já existe uma segunda plataforma de aproveitamento de gás localizada em Cabinda, o Sanha LPG FPSO, primeiro projecto de utilização de gás associado implementado pelo bloco 0, que tem uma capacidade de processamento de 6.000 m3 por dia e armazenamento de 135.000 m3.
Leia o artigo integral na edição 820 do Expansão, de sexta-feira, dia 04 de Abril de 2025, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)