Microseguro é a maior novidade e vai ajudar no crescimento do sector
Todos os operadores estão de acordo que era necessário criar uma legislação própria para os microseguros e que, de uma forma ou de outra, podem ajudar a aumentar as vendas. Onde divergem é na forma como devem ser trabalhados e a importância que, no futuro, poderão ter no mercado.
"O microseguro foi criado para atender a segmentos que tipicamente estão fora do estopo das actividades das seguradoras tradicionais, mas que se enquadram determinados países, em especial naqueles onde o nível de desigualdade de rendimento é grande", começa por explicar Carlos Firme da Fortaleza Seguros, que acrescenta, "o micro seguro necessita de especialização, de uma análise de risco particular. Em termos práticos pode atender a áreas específicas da actividade económica, sendo que também é muito importante porque pode trazer mais pessoas para o sistema financeiro. É um conceito importante e o facto de estar regulamentado, pode ajudar a dar um impulso interessante nas vendas do sector".
Armando Mota, PCA da Tranquilidade, tem uma visão um pouco diferente. "Micro seguro é um micro capital, com um micro prémio, um micro grau de cobertura e um micro custo de distribuição. E vocacionado para pessoas de baixa renda. O microseguro não é um nicho, é enorme, porque a maioria das pessoas em Angola são de baixa renda".
E concretiza os maiores desafios: "Como é que se vende seguros a pessoas de baixa renda com custos de distribuição baixos? Pessoas que não estão propriamente ao telemóvel ou em frente a um tablet, que não telefonam para os call center. Este é que é o segredo, mas eu acho que temos uma solução na Tranquilidade. Não lhe vou contar, mas é importante ressaltar que a actividade das seguradoras é complementar, não podemos andar sozinhas. Neste caso particular, é fundamental ter primeiro microcrédito, que é muito mais fácil, para depois poder vender microseguros".
A forma com que cada uma das empresas olha para este conceito, é fundamental depois para a estratégia a desenvolver. Philippe Alliali, PCA da Salam Angola defende que "o microseguro não é um produto. Os produtos são os seguros de saúde, vida, petrolíferos, agroseguros, etc. O microseguro é um quando o prémio é pequeno, o grau de cobertura reduzida, o prazo curto, etc. Mas dentro daquilo que são os produtos que cada uma das seguradoras já explora".
O gestor lembra que mantendo a lógica é, no entanto, possível desenvolver produtos específicos com estas características que possam ajudar a alavancar as vendas de cada uma das empresas. Lembra por exemplo o exemplo de microseguros que uma escola desenvolveu para os seus alunos em Marrocos, da possibilidade haver um seguro de saúde com cobertura apenas para a malária com um prazo de duração mais reduzido, daquilo que considera ser "a possibilidade de se aproveitarem as oportunidades de mercado".
Custos mais baixos
Pode ficar-se com a ideia que os microseguros são vocacionados para o mercado informal, o que não corresponde totalmente à verdade. Podem ser importantes para situações de risco pontuais, dando a possibilidade a que pessoas de baixa renda possam ter contacto com este produto e minimizar os riscos da sua actividade, que na maioria dos casos pode ser informal.
"O microseguro é um produto para um nicho de mercado, que eu vejo como algo similar ao projecto Bankita para o sector bancário, que levou que muitos cidadãos pudessem ter a sua primeira conta. Penso que pode ser muito importante para aproximar e fidelizar as pessoas aos seguros", refere Fátima Monteiro, PCE do BIC Seguros, que acrescenta, "todas as empresas já têm microseguros, produtos com estas características. Agora já há uma lei e cada uma das empresas vai definir a sua estratégia de acordo com o que pensa do impacto que este produto pode ter na sua actividade".
Os microseguros também obrigam a custos de distribuição mais baixos para que sejam rentáveis, como explica Henda da Silva, administrador da ENSA: "É preciso dizer que a maioria das seguradoras já tem produtos feitos à medida, tal como são os microseguros. A questão que se coloca é que se as seguradoras tradicionais poderão estar neste mercado? Parece-me que sim, desde que tenhamos produtos adaptados ao mercado. É importante também olhar para a experiência em outros países e perceber o que aconteceu por lá. Há um potencial, claramente. Mas é um desafio enorme...".
Neste aspecto há alguma unanimidade. Os microseguros podem ser importantes, mas para isso as empresas têm que se empenhar. "Os microseguros não vão nascer de geração expontânea, não vão crescer apenas com a lei. É necessário criar equipas específicas que possam desenhar os produtos, trabalhá-los no mercado. O facto de haver uma regulação, de poder trazer mais pessoas para o sistema financeiro, de poder dar um impulso importante na penetração dos seguros no seu global, também deve ser levado em atenção", acrescenta Carlos Firme.
Cristina Nascimento da Nossa Seguros, refere que o microseguro é um segmento de mercado específico, com características próprias, e que deve ser encarado como tal. Lembra também que "há graves problemas com os dados estatísticos que são disponibilizados, o que é um problema para elaborar modelos adaptados à anlise de riscos, e quando estamos a falar de microseguros temos que ter uma gestão mais ágil, mais ajustada ao risco. E sem informações correctas e fiáveis, torna-se mais difícil".
Armando Mota refere ainda que "ainda que para estes produtos a taxa de sinistralidade não seja 30 ou 50 por cento, seja 70. Temos depois é que conseguir com a quantidade baixar os custos gerais para ganharmos dinheiro. É a dimensão quando comparada com o custo fixo que nos vai permitir ser rentável. Volto a dizer que é com as pessoas que podemos ter futuro neste negócio. Que temos que popularizar o seguro, e isso, devido às características do país, passa pelo aumento das vendas no segmento dos microseguros".
Fátima Monteiro lembra também que "há um factor importante que é a reputação. Se as maiores empresas decidirem entrar no microseguro vão fazê-lo como fazem por exemplo, nos grandes riscos. Se vou entrar tenho que fazer bem, essa é a lógica".
Parece claro que todos reconhecem que existe neste nicho uma oportunidade de negócio, embora existam diferentes leituras da forma como deve ser abordado. A questão dos custos de distribuição é importante e as empresas que se sentem mais à vontade numa estratégia de capilaridade das suas vendas, estão mais empenhadas na oferta de microseguros.










