"Já não somos só espectadores, somos também consumidores"
Palavras que rimam subjectividade, que levantam questionamentos e aguçam provocações definem a opção artística de Isis Hembe, um soldado da "estética da existência". Nem sempre é compreendido pelas letras ou pelas frases, mas pelo som e pela energia que movem a arte.
Já recorreu várias vezes a palavra "estranho" para definir a sua arte. Imagine que a palavra não existe mais. Como é que Isis Hembe se apresentaria na arte?
Sou um artista de rap que trabalha de forma transmediática. Faço rap no formato musical, teatral e, mais recentemente, aventurei- -me no cinema com um musical que realizei. Não gosto muito do rótulo "artista multidisciplinar", embora seja legítimo. Vejo-me como um artista do rap com a capacidade de mobilizar a palavra para outros cenários. Esta é a base da minha proposta artística. Tenho alguns álbuns, iniciados com "Prazer, Isis Hembe", que é uma apresentação da minha personalidade. Os outros trabalhos mantêm uma continuidade lógica.
Qual é a filosofia da sua arte?
Convém esclarecer que o meu trabalho é uma espécie de autocópia, uma edificação do meu eu que quero apresentar à sociedade. A filosofia central é, em grande medida, existencialista, voltada para a estética da existência. Uso a arte como meio de construção da subjectividade.
No fundo, a sua arte nasce do questionamento constante e de uma guerra travada internamente. Quais são as partes que guerreiam dentro de si?
São várias. Mas o essencial é responder à pergunta: o que significa viver? Somos seres culturais e, por vezes, as culturas alienam a nossa natureza. Inventamos tantas coisas e depois não conseguimos conciliar essas invenções com a nossa essência, sentindo- -nos infelizes. A guerra é tentar compreender como participar da vida de forma a potenciar a minha energia vital e a dos que nos rodeiam, incluindo a natureza.
Já chegou a uma resposta definitiva?
Essa pergunta nunca tem uma resposta definitiva. Se um dia a responder completamente, provavelmente deixarei de fazer arte. O que faço é encontrar respostas provisórias, que logo geram novos questionamentos. Viver bem não é encontrar uma resposta final, mas questionar continuamente.
É essa subjectividade tão relevante na sua arte que marca o tom do álbum "Prazer, Isis Hembe", uma apresentação poética do artista ao mundo...
Sim. No "Prazer, Isis Hembe", como referiste, faço uma apresentação poética e multidimensional de mim mesmo. Na altura, registava uma percepção muito específica: a decisão de me dedicar à arte sem olhar para as consequências e aceitar a responsabilidade de ser artista no nosso contexto, com todas as suas implicações. O meu trabalho seguinte, "O Escrivão Solar", é um passo adiante nessa reflexão, fundamentado na perspectiva de entender o que significa o trabalho por trás da pessoa que aceitou o propósito de viver da sua verdade, da sua produção de vitalidade.
Depois veio a "Quintessência"...
Esse é um projecto conceptual que não segue estritamente a ideia de álbum. Estava imerso noutra perspectiva, queria algo totalmente diferente. Contudo, após escrevê-lo, percebi que existe uma sequência. O trabalho é a procura do quinto elemento, do etérico, fora do plano material, a busca por essencial intangível. A seguir, realizei um trabalho com o Ikonoklasta [Luaty Beirão], "O Insólito Caso do Pássaro Metálico", que conta a história de dois gangsters com ligação à comunidade que querem usar a sua expertise fora da lei para contribuir socialmente.
Este trabalho deriva de um facto que aconteceu em 2003, quando um avião foi roubado no Aeroporto 4 de Fevereiro?
Sim, foi roubado à vista de todos, sem que jamais se soubesse, até hoje, o seu paradeiro. Nem os americanos da CIA e do FBI deram resposta ao caso. A partir desse facto, criámos a narrativa ficcional. Por fim, realizei "As Aventuras do Angosat", uma ópera hip-hop que aborda a busca por inteligência fora da Terra, mas que, no fundo, questiona as nossas prioridades. É uma metáfora sobre escolhas, como a prioridade entre investir em satélites ou combater a fome.
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