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"Para fazer música devemos colocar a consciência antes do dinheiro"

ALEXEY SHAKITKO | PIANISTA E PRODUTOR CULTURAL

Entre a afirmação internacional e os desafios de trabalhar com instrumentos e profissionais não qualificados, Alexey Shakitko é um músico do género clássico natural da Rússia. Residente em Angola, o artista defende que a música não é apenas uma fonte de rendimento e que os artistas devem colocar a consciência à frente do dinheiro.

Vai realizar a V edição do Festival Internacional de Cacimbo de Música Clássica de Angola. Como nasceu este evento de música clássica?

O projecto começou em 2017, quando em Angola não havia nada de música clássica. Aliás, quase sou o pioneiro da música clássica angolana. Sei que antes da independência já havia, mas depois deixou de existir. Então, trouxe a música clássica de volta a partir de 2014. Na altura, fazia projectos de música na Fortaleza de Luanda, que eram um sucesso e decidi fazer algo mais alargado. Primeiro, convidei dois amigos estrangeiros, isto em 2017, juntos fizemos um repertório vasto, com várias obras que tocaram durante três dias, sem serem repetidas. A seguir fizemos um concurso infanto juvenil de música clássica, porque na época não havia em Angola. E acredito que até hoje continuo a ser uma das poucas pessoas que dá oportunidade às crianças para partilharem o palco com músicos consagrados no ramo.

Onde é que será realizado o Festival?

Sempre tivemos parceria com o Memorial António Agostinho Neto, mas resolvemos ir para a Sky Gallery devido ao formato do festival e porque precisamos de ter um lugar adequado para a música de câmara, apesar de não existirem salas específicas. O Memorial, apesar de ter um espaço maior, o piano que lá está não é profissional e muitas vezes temos de nos reinventar. Neste momento, foram-nos emprestado instrumentos musicais de melhor qualidade pelo nosso parceiro da Nova Energia, Yuri Simão.

O coral Grémio das Artes é composto por quantas pessoas? Como entraram para a companhia?

Somos mais de 20 pessoas. A maioria pertenceu à Orquestra Capossoca e foram meus alunos lá, depois foram estudar para a Rússia. Quando regressaram, entraram para a Orquestra Nacional e lá formaram um grupo. Porém, procuraram por mim e disseram que queriam continuar a trabalhar comigo. Entretanto, abracei o projecto porque vi neles maturidade e desejo profissional. E, desde Novembro passado, o Grémio das Artes conseguiu um vasto repertório que conta com cerca de 80 arranjos de músicas eruditas e angolanas.

É uma mais-valia para a nossa cultura ter jovens nacionais que tocam música clássica de forma profissional?

É interessante ver que os jovens angolanos se interessam por esse género e que conseguem transformar a música angolana em música erudita. Fico feliz quando as pessoas começam a fazer coisas novas pelo seu País e o nosso objectivo é não desvincular a identidade angolana do Festival.

Quais são os desafios de trabalhar no mercado angolano?

Fora a falta de instrumento profissionais. Quando cheguei, em 2013, como membro da comissão que organizou o FENACULT, percebi que as pessoas na altura não tinham competência para perceber a diferença entre um piano e outro. Para muitos, um piano é apenas um objecto bonito. Actualmente, já consigo perceber exigência no tratamento acústico, na beleza e impacto do som, na mecânica do instrumento, já temos bons afinadores, etc.

Hoje, os profissionais já conseguem definir e trabalhar com cada instrumento?

Já se percebe esse avanço. Porque, quando vamos trabalhar com estrangeiros ou convidamos alguém, há certos níveis de exigência. Há artistas, por exemplo, que só tocam na Yama porque têm um contracto que lhes impõe determinadas limitações e um certo tipo de afinação. Entretanto, afinar um instrumento não é só afinar e pronto. É necessário que o profissional conheça os repertórios para se poder adequar a cada género musical. Uma vez, na Gulbenkian [em Portugal], tive um afinador que adaptou o piano para Chopin e testei o instrumento para Mozart e ele assustou-se e disse: "Senhor, eu não sabia que ia tocar Mozart, eu afinei para Cho pin". Isto fez-me perceber a competência do profissional.

Em Angola não temos profissionais a esse nível?

Não temos, estamos muito longe. Mas basta lançar esses desafios para se perceber que há...

Leia o artigo integral na edição 878 do Expansão, sexta-feira, dia 29 de Maio de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui

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