Censo 2024 foi reduzido a estimativas e perde validade para definir políticas públicas
Tudo o que seja acima dos 10% de exclusão de população é classificado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um mau censo. Apesar de terem sido gastos cerca de 300 milhões USD para este Raio-X à população angolana, vai ser difícil convencer organizações estrangeiras com os dados agora publicados.
A margem de erro de cobertura líquida do Recenseamento Geral da População e Habitação de 2024 (RGPH) foi de 28,3%, o que significa que cerca de 10,4 milhões de angolanos ficaram por contabilizar, num universo populacional estimado em 36,6 milhões de habitantes. O censo, principal instrumento para medir a população real de um país e produzir uma base exaustiva de indicadores essenciais para a definição de políticas sociais e económicas, fica assim reduzido a uma "mera estimativa", dada a fragilidade dos dados obtidos.
Só para se ter uma ideia da baixa qualidade que o documento representa, tudo o que seja acima dos 10% de exclusão de população é classificado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um mau censo, conforme é possível verificar num quadro que foi publicado na página 24 do Censo de há 10 anos.
Na ocasião, a tabela de classificação dos censos da ONU, citada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no Censo de 2014 para justificar a qualidade do inquérito realizado naquele ano, estabelece que o grau de omissão é considerado "muito bom" quando se situa entre 2% e 4% da população excluída. "Bom" entre 5% e 8% (caso do Censo de 2014), "regular" entre 9% e 10% e "mau" quando supera 10%.
No RGPH 2024, a subcobertura foi maior na área urbana (32,2%), onde teoricamente o acesso é mais fácil e onde se concentra mais de 66% da população angolana. Nas zonas rurais, a exclusão atingiu 25,6%. Com uma margem de exclusão quase três vezes superior ao limite de um "mau censo", um docente universitário de Economia considera que os resultados representam apenas uma "sondagem" da população e das suas características, quando se esperava obter dados reais para evitar que se continue a governar na escuridão.
O Censo 2024, que custou cerca de 300 milhões USD, foi o segundo realizado após a independência e o primeiro a recorrer à recolha digital de dados, por meio da tecnologia de Entrevista Pessoal Assistida por Computador (CAPI). A inovação deveria tornar mais eficientes os processos de recolha e tratamento de dados, além de acelerar a disponibilização de informação geoespacial que permitiria mapear os bairros de forma mais precisa para orientar o trabalho dos recenseadores.
No entanto, a forma conturbada como a operação foi conduzida, a fragilidade dos resultados e a dúvida gerada pela elevada taxa de exclusão (referência central para avaliar a qualidade de um censo) indicam o contrário. Os dados divulgados, por exemplo, não apresentam indicadores socioeconómicos essenciais, como taxas de emprego e desemprego, acesso à internet ou a serviços de telefonia, nem incluem informação sobre migração, variável recolhida no Censo de 2014.
No lançamento do censo, em 19 de Setembro do ano passado, o ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, Francisco Pereira Furtado, então coordenador da Comissão Multissectorial de Apoio à Realização do Censo, destacou o papel fundamental do recenseamento na contagem precisa da população e na recolha de características essenciais.
"Os censos têm a vantagem incomparável de cobrir todo o universo estatístico (até as menores unidades geográficas) e são uma ferramenta essencial para o planeamento e desenvolvimento de políticas públicas", afirmou o governante. Mas nem sempre a vontade "bate" com o que depois é feito.
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