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EXPANSÃO - Página Inicial

Angola

Passageiros gastam menos com comboio mas preferem viajar de carro

FALTA DE TERMINAIS MULTIMODAIS RETRAI PROCURA

Os comboios suburbanos em Luanda são agora mais rápidos e com melhores condições para os utentes. Caminho de Ferro de Luanda (CFL) diz que tem mais três composições prontas, mas só vai colocá-las em circulação quando a procura aumentar. Os cidadãos ainda não têm confiança neste meio de transporte.

As novas composições (Unidades Múltiplas Diesel ou DMU, de origem chinesa) de comboios urbanos e suburbanos de Luanda, que começaram a funcionar em Julho do ano passado, vieram trazer um novo ar e melhorias na qualidade da viagem para quem circula diariamente entre os municípios de Viana e de Luanda. Mesmo assim, apesar de o CFL ter colocado à disposição um comboio devidamente climatizado, silencioso e cómodo, muitos dos potenciais utentes ainda preferem viajar de carro.

Os argumentos utilizados indicam que a linha férrea passa numa zona afastada dos destinos mais procurados (a linha está mais "encostada" à zona norte da cidade, a caminho do Porto de Luanda), por isso, a viagem de comboio pode ter de ser complementada por outras deslocações a pé ou outro transporte público.

Este é o caso de Helder Chissingue, de 38 anos, funcionário público, que afirma não estar disposto a suportar enchentes e empurrões nos comboios, para além de questionar as condições das próprias carruagens.

"O que se passa é que as pessoas perderam o hábito de andar de comboio, ao mesmo tempo que há pouca publicidade dos serviços ferroviários. As pessoas desabituaram-se deste meio de transporte", defende Luís Lunga, notando que, por exemplo, quem trabalha na Mutamba ou Maianga terá de andar mais alguns quilómetros desde a estação final, no Bungo, até ao seu destino. "Quem tem disponibilidade financeira não se vai submeter a este sacrifício", acredita o jurista.

Luís Lunga sublinha que a solução passa por implementar terminais multimodais, que conectem os serviços ferroviários suburbanos aos autocarros ou táxis, para ajudar a transportar os passageiros do comboio para outros pontos da cidade.

Actualmente, os comboios do CFL realizam 18 viagens ao longo de todo o dia (um baixo número de frequências, tendo em conta a dimensão da cidade de Luanda) e os preços variam entre 150 e 200 Kz por trajecto. Quem sai de Viana para Luanda desembolsa 200 Kz num único comboio especial (que oferece melhores condições). Quem sai de Catete para a estação dos Musseques desembolsa 150 Kz num comboio normal.

Quem vive a poucos metros da estação de comboios de Viana pode chegar até à paragem a pé. Mas quem reside nos bairros mais distantes das estações do CFL, como, por exemplo, no Zango, Boa Fé ou Cacuaco, entre outros, precisa de apanhar um táxi ou motorizada para chegar até aos serviços rodoviários.

Luciana Verás é uma das utentes do CFL. Mora no Zango 4 e viaja duas vezes por dia no comboio. No total, gasta diariamente 1.000 Kz em transportes públicos. Sai de casa às 5h00 e desembolsa 300 Kz pelos dois táxis que deve apanhar até à estação de Viana. Depois paga 200 Kz por um bilhete de comboio para chegar à cidade, o que totaliza 500 Kz por cada trajecto entre a sua residência e o local de trabalho.

"No tempo em que me deslocava de táxi, tinha de preparar 2.000 mil ou 2.500 Kz por dia. Mesmo assim, por vezes, atrasava-me no serviço por causa do trânsito. Agora, com o comboio, gasto menos dinheiro e também menos tempo em deslocações", conta Luciana Verás.

Poucas viagens, poucos passageiros

Do município de Viana para o terminal do Bungo (Porto de Luanda), o comboio faz oito paragens nas estações da Comarca, Estalagem, Gamek, Filda, Musseques, Rotunda e Textang. Nas viagens que o Expansão fez, as paragens em cada estação não ultrapassaram 1 minuto. A ligação entre Viana e o Bungo é completada em cerca de 50 minutos.

"Estão em circulação dois comboios de passageiros que comportam, cada um deles, quatro composições. No total, podem transportar 700 pessoas por viagem ou 22 mil por dia", sublinha Augusto Osório, director de comunicação do CFL.

Mesmo assim, o número de passageiros é reduzido, sobretudo quando comparado com a elevada densidade populacional dos municípios por onde passa a linha férrea suburbana na capital do País: só o município de Viana acolhe quase 2 milhões de habitantes. Como estimou um antigo funcionário do CFL, metade destas pessoas precisa de se movimentar diariamente.

"Dá a impressão que as pessoas deixaram de acreditar nos comboios, isso depois das enchentes, empurrões e falta de condições dos serviços ferroviários, realidade que se registava até antes de 2021", terminou o antigo funcionário, agora na reforma.

A direcção do CFL defende que continua a ter muita afluência aos seus serviços e que as quatro composições que circulam no perímetro suburbano têm conseguido dar resposta à procura. De acordo com Augusto Osório, "há mais três composições novas em processo de comissionamento e que vão entrar em circulação tão logo haja necessidade".

Sem adiantar os planos futuros de requalificação da linha e investimento em novas ligações, o responsável do CFL acrescenta que "as características das novas locomotivas permitem responder à procura, deixando para trás os episódios de enchentes e pessoas penduradas nos comboios, sem a possibilidade de fechar as portas por causa do excesso de lotação. Alinhado a isto estava também a lentidão do antigo comboio", sublinhando que aquela "é uma realidade do passado".

As novas composições ainda estão em fase experimental, conforme indicam os contratos assinados com a fabricante chinesa CRRC. Dados dos últimos relatórios e contas do CFL indicam que, em 2020, foram transportadas 633.205 pessoas. Em 2021, o número de passageiros baixou para 436.561. O CFL dispõe também de serviços ferroviários interprovinciais, que interligam a província de Luanda ao Cuanza Norte e Malanje.