Os novos pseudo-gurus e "especialistas-instantâneos" da era digital

Os novos pseudo-gurus e "especialistas-instantâneos" da era digital
Foto: D.R.

Habituei-me desde cedo a fazer depender a minha escolha de leituras e estudo ao mérito reconhecido de grandes líderes, gestores e empreendedores que marcaram a minha geração.

Dos famosos ensinamentos de Jack Welch sobre o mundo dos negócios, Sergio Marchionne e Mark Fields para os amantes do mundo automóvel ou David Maister e Roland Berger para aqueles que como eu trabalham em consultoria, procurei sempre reflectir e aprender com as suas histórias e vidas extraordinárias, feitas de sucessos e infortúnios.

Pela natureza da minha profissão pratico exactamente este mesmo método no meu dia-a-dia, quando avalio os profissionais nas organizações: onde estudaram e que experiências de vida têm? Trabalharam em empresas que se destacam pela sua excelência, inovação, eficiência? São académicos com mérito e publicações reconhecidas pelos seus pares?

Esta saudável diferenciação também ajudou sempre os canais de informação tradicionais, TV, rádio e publicações escritas, na escolhas dos comentadores convidados.

No entanto, a pandemia veio abanar as fundações deste modelo. Uma das tendências mais marcantes do último ano foi a aceleração da procura de informação nas redes sociais. Estávamos todos já habituados ao "ruído" inútil dos comentários indiferenciados dos meios digitais que se dedicam às trivialidades do quotidiano, porém esta nova tendência veio agora dominar os canais profissionais mais sérios, onde até agora prevalecia ainda alguma decência intelectual.

Somos, assim, diariamente inundados com "conteúdos" e "conselhos" de desenvolvimento profissional, pessoal e motivacional de gurus e especialistas de qualidade no mínimo questionável.

Entre "auto-promovidos" coachers, opinion-leaders, motivadores, palestrantes e experts de organizações e negócios, este excesso de informação e uma ausência quase total de filtros que permitam validar a qualidade do palestrante levam a um nivelamento por baixo daquilo que realmente podemos aprender com as pessoas que se distinguiram pela excelência nas suas vidas e carreiras profissionais.

A realidade observável é que a maioria daqueles que hoje se prestam a publicar conteúdos nos media digitais e palestrar em webinars não possui formação teórica, académica ou experiência profissional relevante ou sequer interessante. São meros exercícios de marketing pessoal que não passariam no crivo de um contraditório intelectual sério, ou como diria um famoso colunista do New York Times, "para se ser especialista no dias de hoje, basta levantar a mão para falar numa conferência!"

O lado mais sério é que estes especialistas-instantâneos geralmente copiam os sound-bytes de profissionais mais experientes e re-embrulham os conteúdos que ouvem. Mas como, pela sua falta de experiência, não percebem exactamente os contextos da sua aplicação, acabam por não ensinar corretamente os outros. Em consequência aqueles que genuinamente pagam pelos conteúdos destes pseudo-gurus acabam desiludidos e defraudados quando não conseguem alcançar os resultados prometidos.

Neste mundo inundado com informação irrelevante e "especialistas-instantâneos", a credibilidade, autoridade e confiança são mercadorias valiosas e a nova fonte de poder, e existem felizmente algumas técnicas simples que podem ser úteis para evitar a desilusão dos especialistas da era digital, e que decerto pouparão algum dinheiro e tempo em webinars.

*Sócio de Business Advisory & People Management HeadPartners

(Leia o artigo integral na edição 612 do Expansão, de sexta-feira, dia 19 de Fevereiro de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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