"Hoje as relações entre Portugal e Angola são mais equilibradas"

"Hoje as relações entre Portugal e Angola são mais equilibradas"
Foto: Lídia Onde

O novo embaixador de Portugal em Angola chegou há um ano, uma semana antes do primeiro confinamento. Depois do "irritante" iniciou-se uma nova fase de cooperação entre os países, que defende ser mais equilibrada e por isso mais duradoura .

As relações diplomáticas entre Angola e Portugal têm passado nos últimos anos por altos e baixos. Chegou a Luanda há cerca de um ano, como é que encontrou este relacionamento?

Em tempos houve o chamado "irritante", como todos sabem, mas nunca será isso que nos vai levar a sair deste caminho da solidificação de uma relação com fortes laços históricos, que persiste ao longo dos anos. A relação Angola-Portugal é uma relação de cumplicidade, que terá sempre momentos mais chegados e momentos mais afastados. Quando eu cheguei senti-me muito bem, senti-me em casa. O que para um diplomata muitas vezes não acontece. Estou num País em que nos conhecemos. Conhecemos os dirigentes, conhecem-se os países, conhecem-se os povos. É uma relação de enorme potencial e que pode sempre ser melhorada para benefício de ambos os países.

Historicamente, parece que Angola sempre teve melhores relações com Portugal quando estão no poder governos do PSD, com o PS os tempos são sempre mais conturbados. Também faz esta análise?

Não! Creio que a política externa de Portugal é una, e independentemente do partido que está no poder, a relação com Angola, assim como outros países dos Palop, é uma relação será sempre muito cuidada, muito acarinhada e muito intensa. Para ter uma ideia, antes da pandemia, entre Setembro de 2018 e Março de 2019, tivemos três visitas de alto nível e assinámos 35 instrumentos jurídicos de cooperação. Isso não é coisa pouca na relação entre dois países.

Depois do tal irritante, também houve uma tentativa de mostrar serviço em termos de cooperação.

Eu sou muito pragmático nestas coisas. Existia, temos que ver como o tratamos, dentro daquilo que são as leis e a realidade de cada país. Neste período houve 20 visitas a nível político a Angola. Esta cooperação que existe entre os dois países toca todas as áreas - educação, agricultura, saúde, formação, ambiente, energia, justiça, defesa e segurança, tudo. Posso dizer-lhe que este posto para mim é um grande desafio exactamente por causa desta dinâmica e desta força da relação bilateral. E como sabe existe um plano estratégico definido pelos dois governos até 2022. Temos um guião. Mas temos uma relação tão forte que esse guião serve-nos, mas vai ser sempre trabalhado de uma maneira aberta.

Está de acordo com a ideia que houve alguma promiscuidade nas relações económicas e financeiras entre as entidades dos dois países?

Não diria promiscuidade, não posso dizer isso. O nosso ministro dos negócios estrangeiros já referiu que Portugal não esquece como foi importante o apoio de Angola em tempos de crise que nós tivemos. Crise económica e social, que na verdade são agora os angolanos que estão a viver. Esta memória deve lembrar-nos que em tempos tivemos apoio e que neste momento podemos ser nós a apoiar Angola.

Quando falo em promiscuidade, refiro-me à entrada de capitais angolanos em Portugal sem o devido controlo por parte das entidades portuguesas envolvidas.

Nesse tempo que estamos a falar, assistiu-se a um grande "boom" de captação de investimento estrangeiro para Portugal. Foi muito útil para a economia portuguesa. Veio investimento angolano, como veio investimento chinês, coreano. Como ainda continua a vir, sinal da credibilidade e da dinâmica da economia portuguesa. Depois compete a cada uma das instituições fazer a análise do tipo de investimento. Pessoalmente sou a favor do investimento produtivo, mas há alturas em que todo o investimento é bem-vindo. Depois os técnicos de justiça existem, as regras do compliance são cada vez mais estreitas, e todos os países têm as suas regras que têm de cumprir.

Parece-me um pouco teórico...

Claro que há tempos, que justamente pela necessidade que havia, os processos de análise se calhar foram mais rápidos.

Quando se fala de cooperação entre os dois países, fico com a ideia que a cooperação entre as sociedades civis é mais chegada, mais próxima.

Tem toda a razão. Existe uma cooperação de nível institucional, mas depois existe aquela que é muito mais palpável, mais visível. Que é cooperação do dia a dia, do cidadão, do povo. Aquele que resulta da cooperação entre duas cidades com a criação de duas bolsas de estudo, a existência de representantes das empresas angolanas no nosso mercado que possam trazer produtos e possam internacionalizá- -los no espaço europeu, etc.

Cooperação que dá resultados mais rapidamente.

São estas cooperações mais concretas. Mas é importante dizer que os quadros jurídicos da cooperação entre dois países são muito importantes para que depois todas as outras cooperações se desenvolvam. Já quando passei pela AICEP já se dizia que a diplomacia era económica. O chip da diplomacia mudou muito e desengane-se aquele que pensar que se faz diplomacia como se fazia nos últimos 15 anos, ou mesmo nos últimos 10 anos. E nós temos que nos adaptar, como cidadãos, diplomatas e países. Quem não se adaptar rapidamente não fica no mesmo sítio, é ultrapassado porque os outros continuam a avançar.

Como se faz hoje em termos diplomáticos este equilíbrio entre a economia e a política?

Sempre vimos que esta diplomacia económica, que fala quase sempre mais de mercado do que de país, tem que ter sempre um acompanhamento da diplomacia mais pura, se assim podemos dizer, de avaliação da situação política, situação social, porque é também essa a informação que o empresário ou investidor quer saber antes de lançar um processo de internacionalização para fora do país de origem.

Existem constrangimento nas relações económicas entre os dois países, nomeadamente a questão dos "atrasados" que se está a discutir desde 2017.

Não esquecer que estamos a falar nas relações económicas com Angola hoje, com a crise que existe do preço do petróleo, mas também a crise social e económica que esta pandemia trouxe a todos os países. Eu acho que hoje as relações entre Angola e Portugal até são mais equilibradas, e por isso mais duradouras. Houve redução das operações...

Os angolanos tornaram-se mais humildes.

Todos se tornaram mais humildes. O empresário e investidor português quando está cá também tem que se tornar mais humilde. Quando se faz um negócio tem que se saber o que existe e adaptar-se rapidamente às condições. Todos estão mais humildes, e se calhar esta nossa relação está mais duradoura.

As empresas portuguesas estão para ficar?

Com este pando de fundo, há uma questão que é claríssima, as empresas portuguesas não vêm ao mercado angolano, estão no mercado angolano. Há empresas com grandes dificuldades, fazem um esforço enorme para estar no mercado, mas as empresas portuguesas são resilientes. Se no mundo dos negócios podemos dizer que existem amigos e parceiros, eu acho que Portugal tem mostrado desde sempre, e também neste último período mais complicado, a sua relação de amizade e parceria. De presente e de futuro.

Mas no mercado angolano hoje as empresas portuguesas têm uma maior concorrência com empresas de outras origens.

Não há qualquer receio de competir. As empresas portuguesas estão aqui como estão em muitos países africanos, para além dos Palop, que é uma coisa que é bom lembrar. As empresas portuguesas ganham concursos em Angola, ganham concursos em outros países africanos, porque são boas, porque têm competência, têm excelência e têm qualidade. E também porque fazem uma coisa muito diferente de outras, que é a capacitação, a formação, a transferência de tecnologia. Fazem mais parcerias que aquelas empresas que possam ter apenas uma mera visão de negócio.

(Leia a entrevista integral na edição 613 do Expansão, de sexta-feira, dia 26 de Fevereiro de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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