Esperança de reactivação da produção do café "bate" na falta de apoios

Esperança de reactivação da produção do café "bate" na falta de apoios
Foto: Quintiliano dos Santos

A falta de apoio às mudas, a ausência de estradas que permitam o acesso dos comerciantes às zonas de produção, a falta de financiamentos, a ausência de mão-de-obra e a redução constante do preço do quilo do café são os constrangimentos que têm impedido a reactivação da produção do café na terra do bago vermelho.

Na época em que Angola era um dos maiores produtores a nível mundial, ainda no período colonial, o Uige registava uma produção anual que variava entre 17 a 20 toneladas ano (250 sacos de café), agora o número fixou-se entre 10 a 20 sacos cujo preço do quilo varia entre 150 a 200 Kz.

A 33 quilómetros da cidade do Uíge, um grupo de jornalistas de vários órgãos de comunicação social que fazem parte da iniciativa da LAC "Andar o País" chegou esta quarta-feira ao município do Bungo, à fazenda Kinvovoto. Depois de um caminho difícil que obrigou a ligar as tracções das viaturas para "escalar" a montanha argilosa, eis que chegámos junto dos homens que ainda fazem da plantação de café o seu ofício. Trabalho difícil que dá poucos rendimentos, admitem alguns.

"Se vendêssemos o café entre 300 a 350 kz compensaria produzir porque teríamos valor para pagar as três capinações e o transporte, mas a 150 Kz é um sacrifício enorme para manter o sustento da família", lamenta Pereira Metamba, agricultor há 30 anos.

Os elevados custos da produção são um factor que tem contribuído para que apostem noutras culturas, já que para a plantação de café, o agricultor tem de capinar a terra três vezes ao ano, independentemente dos hectares, pagando mil kz todos os dias aos colaboradores."Na última colheita, vendi dez sacos de café e consegui ganhar 90 mil kz, mas todo o dinheiro acabou, pagando a capina e os transportadores do café e no mercado não há compensação porque os clientes baixam muito o preço", explica Pereira Metamba, agricultor de 48 anos. João Samuel, responsável da fazenda Kinvovoto disse que a sua fazenda produz por ano 20 toneladas e vende cada quilo a 250 Kz a empresários.

"Não há apoio nesta actividade, desde o Governo até aos bancos, porque quando pedimos crédito dão-nos muita volta e muitos acabam por desistir desta actividade, apostando noutros cultivos ", atira João Samuel, acrescentando que a sua fazenda emprega 50 pessoas que ganham entre 30 a 38 mil kz.

"Antigamente, o café dava lucro aos nossos pais porque existia um mercado específico para a sua venda, mas agora cada um resolve o seu problema e, se não existir incentivo à actividade, a produção vai continuar a baixar ", lamenta Ernesto Massala, agricultor de 50 anos. O produtor contou ainda que é graças à produção da bananas que tem ajudado muitos fazendeiros a apostar no café porque conseguem dinheiro para pagar a capina, por exemplo.

O chefe do Departamento Provincial do Café, Vasco Gonçalves, reconhece que há falta de apoio aos agricultores, pois é um problema antigo, considerando que a solução não depende somente da sua boa vontade.

Por outro lado, o responsável também revelou que o lucro do café é baixo porque a produção de muitos agricultores é baixa. "Os agricultores num hectare ao invés de terem duas mil plantas, plantam 80 e no momento da colheita só conseguem 200 quilogramas e esse diferencial não ajuda em muita coisa", alerta.

Quatro mil cafeicultores abandonaram cultura

Dos 9.500 cafeicultores registados pelo Departamento Provincial do Café, quatro mil abandonaram a produção devido às dificuldades vividas na actividade. A desistência ou a mudança de cultura dos agricultores de café é motivada pelo prejuízo que actividade impõe . "Muita gente já não se dedica a produzir o café porque dá muito prejuízo e o pagamento é pouco, então preferem ir para a produção de mandioca, que é mais rápida. Mas como o café é a nossa herança não podemos desistir desta actividade", explica João Samuel um dos maiores agricultores do município do Bungo.

(Leia o artigo integral na edição 614 do Expansão, de sexta-feira, dia 5 de Março de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i