Brent datado: na rota da mudança inevitável

Brent datado:  na rota da mudança inevitável
Foto: D.R.

A agência de relatórios de preços de matérias-primas energéticas, Platts, que publica o preço de referência do "Brent Datado", durante o seu evento, por ocasião do IP Week deste ano, realizado no dia 22 de Fevereiro, desta feita no formato online, surpreendeu os mercados com um anúncio de certa forma inesperado: informou a grande comunidade de trading mundial que, a partir de Julho de 2022, a sua metodologia de avaliação do Brent Datado mudaria de FOB Mar do Norte para CIF Rotterdam.

Para além disso, haveria de incluir também a rama WTI Midland, dos EUA, no cabaz de ramas do Mar do Norte, actualmente designado por BFOET (Brent, Forties, Oseberg, Ekofist e Troll).

Os mercados reagiram de uma forma tangível e nervosa ao anúncio, e, acto contínuo, o diferencial (spread) entre o Brent Datado e o ICE Brent aumentou em poucos dias acima dos 30 cêntimos por barril - de notar que essa diferença é, normalmente, muito pequena e em valores negativos. Contudo, esse spread voltou a níveis mais próximos do normal quando o Intercontinental Exchange (ICE) esclareceu que iria introduzir um novo contrato FOB a partir de 22 de Julho, obviamente para compensar o anúncio da Platts e garantir alguma continuidade dos indicadores de mercado actuais, numa base FOB, em vez de CIF.

Embora a Platts tenha informado que a sua decisão foi baseada em uma consulta prévia à generalidade da indústria, vários comentários que se seguiram indicaram algum desconforto e desagrado, principalmente porque a mudança de FOB para CIF não foi discutida anteriormente, apesar de existir um entendimento geral de que a intenção da Platts faça parte de um esforço para superar um problema já antecipado, que está relacionado com a diminuição do volume da produção do cabaz BFOET. Devido ao declínio natural da produção da bacia do Mar do Norte essa produção passou de cerca de 1,25 mbd em 2010, para cerca de 0,9 mbd em 2020.

A mudança do Brent Datado de uma base FOB para CIF, exigiria que outros instrumentos de mercado mudassem também para CIF, principalmente o Brent Futuro de longo prazo (transaccionado para períodos superiores a 2 meses) e o ICE Brent (transaccionado para um período futuro de até 2 meses), com um impacto na movimentação de uma grande quantidade de contratos e de dinheiro físico.

Como resultado das reclamações de vários actores do mercado, alguns dias depois, a Platts recuou na sua posição, pouco antes de uma apresentação pública feita pela Argus, outra importante agência de relatórios de preços de matérias-primas energéticas e concorrente directa da Platts em certas áreas. A Argus predispôs-se a explicar as razões pelas quais manteria o seu preço de referência FOB Mar do Norte, contrariamente à proposta da Platts para o Brent Datado.

AFINAL PORQUE É QUE O BRENT DATADO É TÃO IMPORTANTE ASSIM?

Para termos uma melhor compreensão da importância e implicações da mudança proposta pela Platts, vamos lembrar, de forma resumida, alguns factos históricos marcantes da indústria petrolífera mundial, relacionados com a problemática dos preços:

¦ Antes da década de 60, o preço do petróleo era fixado pelas companhias petrolíferas americanas, que detinham o monopólio do mercado produtor e não só. Naquela época, o preço da rama Arabian Light, produzida na Arábia Saudita, era o único publicado e usado como referência para estabelecer o preço de todos as outras ramas do mercado. Como as petrolíferas, que estavam de ambos os lados da "equação", conseguiam regular a sua produção de acordo com a procura, garantiam um preço estável e ajustado aos seus objectivos;

¦ Após a nacionalização de vários campos de petróleo, principalmente no Médio Oriente, a OPEP foi formada em 1960. Em 1973, após o conflito entre Israel e Palestina, ocorreu uma importante mudança no mercado global de petróleo: os países árabes declararam um embargo petrolífero aos países que apoiavam Israel, naquele que ficou designado como o "primeiro choque petrolífero";

¦ A OPEP assumiu o controle dos preços do petróleo, passando a publicar uma tabela de preços baseada na rama Arabian Light e para atingir o preço estabelecido, a Arábia Saudita teve a tarefa de adequar a oferta do Arabian Light. Num ápice, o preço do petróleo saltou de 2 USD/BBL para cerca de 15 USD/BBL, criando a primeira grande crise do petróleo para os principais países consumidores;

¦ Essa fase do mercado de petróleo, caracterizada pelo controle absoluto da OPEP, durou cerca de 15 anos. Em 1974, os principais países consumidores de petróleo criaram a Agência Internacional de Energia (AIE), uma espécie de think-tank que serve para esses países prevenirem as acções da OPEP e superarem situações semelhantes à crise de 1973;

¦ Alguns anos depois, em 1976, o campo de petróleo Brent iniciou a produção no offshore das Ilhas Shetlands, parte integrante do Reino Unido. Como a oferta mundial estava a aumentar, em 1985 a Arábia Saudita anunciou uma guerra de preços do petróleo bruto contra os países não-OPEP, acusando-os de recusar qualquer forma de coordenação para controlar os preços do petróleo e que eles se beneficiavam da produção da Arábia Saudita, que foi sacrificada para sustentar o preços. Como resultado, o mercado foi inundado com petróleo e produtos refinados e os seus preços começaram a cair;

*Antigo Representante de Angola na OPEP

**Engenheiro de Sistemas de Energia

(Leia o artigo integral na edição 619 do Expansão, de sexta-feira, dia 9 de Abril de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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