Abril, faltas mil

Abril, faltas mil
Foto: D.R.

Abril chegou e com ele o famoso adágio internacional "Abril águas mil" que nos remete a clara particularidade da temporada de aguaceiros em delimitados pontos do mundo. Para alguns países, o perigo, são sobretudo, os acidentes na estrada derivado ao piso molhado, para outros países é a melhor época para se cultivar; em Angola, e particularmente na capital do País, a preocupação é sobreviver com a menor perda de bens materiais possível.

No mesmo mês em que se comemora a paz, a reconciliação e a reconstrução nacional, as chuvas de Abril danificaram pontes, desabaram paredes, derrubaram árvores, estragaram viaturas, empreendimentos, electrocutaram pais, mães, filhos e sobrinhos de quem ainda espera e sonha com um país novo, um renascer fénix em solo angolano que tarda em surgir.

Por muito que se pretenda justificar as enchentes como desastres naturais, as suas consequências não têm justificação aceitável, num país com milhares de quadros ex-bolseiros pelo Estado Angolano em realidades científica, arquitectónica e tecnologicamente avançadas. Não é aceitável que Abril após Abril vidas angolanas se percam. Não é aceitável que saltos altos e gravatas de seda estejam indiferentes e que cerca de 19 anos após a assinatura dos Acordos de Paz, o problema da capital de Angola ainda seja a falta de esgotos e saneamento básico e que a chuva seja ainda o maior fiscal das obras públicas. Todas estas constatações são necessárias para a reflexão do Gestor de Recursos Humanos para a sua abordagem face ao absentismo dos colaboradores em épocas de quedas pluviométricas.

Em RH não se fala de política governativa, fala-se e com bastante propriedade, de Políticas de Desenvolvimento de Capital Humano, e como tal, faz-se uma grande chamada de atenção à inflexibilidade.

A inflexibilidade de alguns gestores de RH para com os funcionários que faltam ao local de trabalho em razão da chuva (supondo que é por obra da natureza) esquecendo-se de contextualizar a situação sendo que por vezes, por mais que o funcionário queira apresentar-se ao local de trabalho, há zonas da cidade de Luanda em que o pacato cidadão fica completamente bloqueado, pois não há vias terciárias que se façam sentir na cidade capital.

Abril de 2021 é um exemplo claro de que é necessário manter-se em casa para proteger os seus bens materiais, apoiar os vizinhos na retirada do excesso de água que entra de rompante para dentro das casas e garantir que todas as fontes de energia estão devidamente desligadas; se o cidadão for de transporte privado, arrisca-se a inundar o seu meio de transporte; se se deslocar de transporte público, terá que aprender a lutar kung-fu para que seja possível obter um assento num candongueiro cheio de outros guerreiros que precisam marcar presença no local de trabalho; arrisca-se a ser atropelado por um carro desgovernado; arrisca-se a ser electrocutado por um pequeno deslize e arrisca-se a sofrer descontos salariais ou despedimento por justa causa. Riscos e mais riscos são o que se espera de Abril.

*Gestora de Recursos Humanos e professora universitária

(Leia o artigo integral na edição 624 do Expansão, de sexta-feira, dia 14 de Maio de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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