Subida da taxa de juro de referência vai atrasar esforço da diversificação
O aumento da taxa de juro de referência do BNA não é uma medida unânime e gera análises diferentes por parte do sector. Existe a convicção que a taxa de inflação, perto dos 24%, realmente, não faz bem à economia.
Todos concordam com a doença, mas existem diferenças de opinião sobre a cura.
"Pode justificar-se que o aumento da taxa de juro tem como principal motivação o controle da inflação, mas isso seria verdade se o País tivesse capacidade produtiva mínima para assegurar as necessidades dos cidadãos", começa por nos dizer um dos banqueiros ouvidos pelo Expansão, que acrescenta: "Em tempos passados, a inflação era justificada pela desvalorização do kwanza, mas agora que há estabilidade da moeda, esta inflação é importada. Tem a ver com os preços dos bens nos mercados internacionais e pelo aumento dos fretes. O País, como não tem produção, tem de importar tudo. O frete da China, o preço do contentor aumentou 3/4 vezes. Por isso, não é mexendo na taxa de juro de referência que se combate este fenómeno, é diversificando a economia e aumentando a produção nacional".
Não há diversificação da economia sem crédito bancário, e por isso muito se falou deste tema no Fórum Banca. Hoje existem dois caminhos para o acesso ao crédito na nossa banca comercial, o dos programas específicos de apoio à economia de onde se destaca o PRODESI, com uma taxa de juro à volta dos 7,5%, e a "estrada normal", onde a taxa de juro ronda os 24%. "Apesar do valor da taxa de referência, existe sempre o caminho do PRODESI para os empresários poderem desenvolver os seus projectos. Terá de ser por aqui", confirma Augusto Ramiro Batista, do Banco Millennium Atlântico.
Aliás, é preciso ter em conta que não é possível para um projecto, seja no sector agrícola ou industrial, suportar uma taxa de juro acima dos 20%. Para aqueles que não tem intenção de pagar, isso não interessa e até podia ser 30%, agora para um empresário sério e empreendedor esta não é certamente uma solução. E esse é outro desafio da banca, pois a concessão de crédito com esta taxa de referência fica limitado aos programas específicos de apoio à economia.
Em termos práticos, se um empresário abrir um processo num banco comercial para um crédito à agricultura, indústria, ou mesmo área comercial, que contemple um estudo viabilidade com uma taxa de juro a rondar os 24%, é para desconfiar.
Controlo da inflação
O paradigma de que o controlo da inflação é o mais importante, que ganha corpo num conjunto de políticas restritivas, restringe os meios disponíveis para o esforço de diversificação da economia, não ajuda a baixar os números do desemprego, e mantém um nível elevado de informalidade na economia. Aumentar as taxas de juro nesta altura pode ser um estímulo à poupança como alguns defendem, mas para aqueles empresários que são apanhados a meio da implementação de um projecto, cria dificuldades para pagar os valores em dívida, e a médio prazo pode ser contraproducente, os projectos podem parar.
Vários dos nossos convidados do Fórum falam numa outra opção, que passaria pela baixa das taxas de juro, com o risco de a inflação aumentar numa primeira fase para valores acima dos 30%, que com o tempo iriam estabilizar, à medida que o efeito dos projectos produtivos em andamento tivessem na diversificação da economia. "Era preferível ter uma estrada única de acesso ao crédito a rondar os 16%, do que estas duas, uma a 7,5% e outra a 24%", disse-nos um dos banqueiros ouvidos pelo Expansão.
(Leia o artigo integral na edição 636 do Expansão, de sexta-feira, dia 06 de Agosto de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)











