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Mundo

Chimpanzés, uma inteligência quase humana

Evolução

Os chimpanzés partilham tantos traços com os seres humanos, que, por vezes, arrepia.

Têm consciência de si mesmos, capacidade simbólica e cultura que transmitem de geração em geração; podem aprender linguagem gestual com um vocabulário de umas 300 palavras e são inclusivamente superiores a nós em algumas habilidades de memória matemática. Demasiado parecidos?

Os chimpanzés parecem-se mais connosco do que qualquer outro animal. Em termos de anatomia geral, são os animais que mais se assemelham a nós.

São inteligentes, capazes de resolver problemas, fabricar e utilizar ferramentas simples e de transmitir conhecimentos aos seus descendentes. Estabelecem complexas relações sociais, mostram uma especial preocupação pelas suas crias, e têm consciência de si mesmos.

Graças à educação recebida do homem, os chimpanzés conseguiram aprender linguagem de gestos básicos. Cooperam com os seus congéneres, mas também podem ser manipuladores e mentirosos, uma astúcia muito humana que exige um desenvolvimento cognitivo complexo. Só eles e nós sabemos elaborar uma mentira.

Os gestos dos chimpanzés até já têm o seu primeiro 'dicionário básico'. Um estudo feito por investigadores da Universidade de St. Andrews e publicado na revista científica Current Biology, permitiu traduzir os gestos corporais usados por estes primatas para comunicarem: levantando os braços, dando palmadas na terra ou mostrando a palma da sua mão, entre muitos outros.

Outro factor interessante reconhecido nos chimpanzés é a produção de ferramentas para conseguir os seus alimentos, sem que ninguém lhes tenha ensinado, por um método de tentativa e erro. Estas ferramentas vão desde paus para obter mel ou térmitas até lanças para a caça.

Os investigadores do Instituto Max Planck demonstraram que estes instrumentos podiam ser multiusos, o que requer uma manifesta capacidade de planificação. A tecnologia usada pelos chimpanzés acabou por se revelar assustadoramente humana, de acordo com antropólogos.

Eles descobriram que uma população da espécie no Senegal usa lanças de madeira para caçar pequenos primatas. É a primeira vez que uma criatura que não seja humana é vista usando uma arma de caça, e o achado pode ter uma série de implicações intrigantes sobre a origem da tecnologia dentro da nossa própria linhagem evolutiva.

Já a floresta equatorial do Congo, definitivamente, tem pouco que ver com a Califórnia, mas ao que parece o país africano também tem seu 'Vale do Silício', um pólo de tecnologia tão rico quanto a meca americana dos computadores.

A única diferença é que não se trata de tecnologia humana: as matas do chamado triângulo de Goualougo são um dos maiores pólos tecnológicos de chimpanzés. A descoberta vem de um levantamento de sete anos feito por uma dupla de americanos, a bio antropóloga Crickette Sanz e o biólogo da conservação David Morgan.

Eles descobriram que os chimpanzés de Goualougo fabricam e usam instrumentos de 22 maneiras diferentes. A abundância de tecnologia é tão grande, que os macacos congoleses assumiram a liderança entre os mais hábeis da sua espécie, empatando com os seus primos de Gombe, na Tanzânia - um lugar que é estudado há quatro décadas.

Temos uma semelhança assombrosa e estamos relacionados geneticamente. Pertencemos à mesma árvore familiar e procedemos dos mesmos 'avós'. Então porque foi capaz o cérebro dos humanos de desenvolver a habilidade inata para a linguagem, e o dos chimpanzés, não?

A culpa é de um gene

Acreditava-se que esse abismo poderia ser explicado por um conjunto de genes que se transformou rapidamente nos humanos - evoluiu, portanto - desde que nos separámos do ancestral comum que nos unia aos chimpanzés há cerca de seis milhões de anos, mas cientistas da Universidade da Califórnia (EUA) crêem que a diferença radica num só gene.

O estudo, publicado na revista Nature, não só poderá explicar os motivos por que a linguagem é exclusiva do homem, como também encontrar uma solução farmacológica para graves transtornos humanos caracterizados pela interrupção da fala, como o autismo e a esquizofrenia.

Os investigadores suspeitam de que boa parte da resposta ao mistério radica no gene chamado FOXP2, cuja composição em aminoácidos "mudou ao mesmo tempo que os humanos modernos começaram a utilizar a linguagem".

O caso é que a investigação demonstrou que o FOXP2 "não só é diferente, como funciona de maneira diferente nos humanos e chimpanzés". Compartilhamos 99% dos nossos genes com os chimpanzés embora apenas compartilhemos 96% das 'frases genéticas' formadas com eles. É uma coincidência muito grande e todavia não se entende como somos tão diferentes.

Na realidade, não é possível relacionar um dado sobre a diferença genética entre duas espécies às diferenças de facto entre elas (seja isso o que for), ou seja, em relação às suas morfologias, fisiologias, comportamentos, particularidades bioquímicas… enfim, àquilo a que chamamos fenótipo.

Um ser humano não é 1% diferente de um chimpanzé. Uma frase como esta não só é errada, como é também um mau serviço à construção do saber científico. Os seres humanos e os chimpanzés são organismos que compartilham uma série de características (o termo correcto é estruturas) devido à sua história evolutiva comum, e cada um, por seu lado, possui uma série de características únicas, exclusivas.

Muitas são genéticas, algumas são hereditárias e não-genéticas, outras até mesmo nem hereditárias nem genéticas… Não faz sentido (nem é possível) quantificá-las.

Afinal, o segredo das diferenças físicas e comportamentais está em quais genes são de facto activos em cada espécie.

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