África precisa transformar oportunidades em desenvolvimento
África precisa, por isso, de mais do que paz. Precisa de construir uma capacidade produtiva que lhe permita resistir melhor às crises externas e transformar períodos de crescimento em desenvolvimento sustentável e equitativo. O desafio não é apenas acabar com os conflitos, mas criar economias capazes de transformar as próximas oportunidades em desenvolvimento duradouro.
Angola acolheu, no final de Agosto, a 21.ª Cimeira Extraordinária dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, dedicada ao reforço dos mecanismos de prevenção e resolução de conflitos no continente. A cimeira realizou- -se num momento particularmente delicado, marcado pelo conflito no leste da RDC, pela guerra no Sudão, pelas crises na Somália e em Moçambique e pela insurgência jihadista no Sahel. O encontro serviu também para aprofundar o debate sobre o impacto dos conflitos nas oportunidades de desenvolvimento dos países africanos. Sobre esta questão, limitar a discussão à pergunta sobre se os conflitos geram subdesenvolvimento ou se, pelo contrário, é o subdesenvolvimento que gera conflitos em África parece-nos demasiado simplista.
África tem 54 países, com trajectórias políticas e económicas distintas. Alguns experimentaram longos períodos de guerra civil, que ajudam a explicar parte das suas dificuldades actuais. Outros não passaram por experiências semelhantes e, ainda assim, não conseguiram alcançar níveis elevados e sustentados de desenvolvimento. A Zâmbia é um exemplo: apesar de não ter vivido uma guerra civil como Angola, enfrentou durante décadas profundas dificuldades económicas que limitaram a sua trajectória de desenvolvimento. A questão é, portanto, mais complexa.
África concentra uma parte significativa dos países de menor rendimento do mundo, mas até que ponto teve oportunidade para superar as condicionantes herdadas do passado, incluindo o legado do colonialismo? No período pós- -independência, muitos países africanos investiram na construção de infraestruturas essenciais à transformação das suas economias, recorrendo fortemente ao financiamento externo. Contudo, em várias ocasiões, quando começavam a criar condições para acelerar o desenvolvimento, foram atingidos por crises externas que interromperam esse processo.
Um exemplo foi a crise da década de 1970. A guerra do Yom Kippur e o subsequente embargo petrolífero contribuíram para uma forte subida do preço do petróleo e da inflação nas economias avançadas. Estas responderam com aumentos significativos das taxas de juro, medida que contribuiu para combater a inflação, mas agravou as dificuldades de muitos países africanos fortemente endividados. O aumento do custo do financiamento contribuiu para as crises da dívida dos anos 80, seguidas, em muitos casos, por programas de ajustamento estrutural apoiados pelas instituições financeiras internacionais.
A situação alterou-se parcialmente com o boom das matérias-primas no início do século XXI. Durante alguns anos, as economias africanas registaram taxas de crescimento elevadas. Mas, quando parecia existir uma oportunidade para transformar esse crescimento em desenvolvimento sustentado, surgiu a pandemia da Covid-19.
A pandemia mostrou uma realidade importante: em períodos de crise, tendem a resistir melhor as economias com maior capacidade produtiva interna. As restrições ao comércio afectaram as cadeias de abastecimento, enquanto várias economias avançadas limitaram a exportação de bens e equipamentos essenciais ao combate à pandemia.
Quando a economia mundial começava a recuperar, a invasão russa da Ucrânia desencadeou uma nova crise, com fortes impactos nos preços da energia, dos alimentos e dos fertilizantes. Mais recentemente, as tensões no Médio Oriente acrescentaram uma nova fonte de incerteza. Vista nesta perspectiva, a história recente sugere que os períodos de estabilidade e prosperidade em que África poderia acelerar a sua transformação económica têm sido frequentemente interrompidos por crises, muitas delas com origem fora do continente.
Há, contudo, outro problema. O boom das matérias-primas produziu crescimento, mas não criou empregos formais de qualidade em quantidade suficiente, sobretudo para a população jovem. O relatório Africa at a Tipping Point, apresentado pela Fundação Mo Ibrahim em 2017, já chamava a atenção para este paradoxo: entre 2004 e 2014, 10 das 25 economias que mais cresceram no mundo eram africanas, mas, em 2015, o continente tinha mais de 30 milhões de jovens desempregados. O facto de apenas cinco países africanos terem registado, entre 2006 e 2014, um crescimento anual da indústria transformadora superior a 10% ajuda a explicar a distância entre crescimento económico e criação de emprego.
Os conflitos são, sem dúvida, um obstáculo ao investimento e à transformação económica. Mas seria igualmente errado atribuir às guerras a totalidade dos problemas de desenvolvimento de África. Choques externos, dependência das matérias- -primas, fragilidade produtiva e limitações institucionais também desempenham um papel decisivo. África precisa, por isso, de mais do que paz. Precisa de construir uma capacidade produtiva que lhe permita resistir melhor às crises externas e transformar períodos de crescimento em desenvolvimento sustentável e equitativo. O desafio não é apenas acabar com os conflitos, mas criar economias capazes de transformar as próximas oportunidades em desenvolvimento duradouro.













