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Opinião

Inflação (parte II)

CHANCELA DO CINVESTEC

Enquanto a produção nacional decrescer face à procura e continuar dependente de um produto de exportação em fase de declínio da produção e com preços muito voláteis, uma política estritamente monetária pouco poderá fazer para travar a marcha inflacionária da economia.Estas continuam, a nosso ver, as teses mais válidas sobre a inflação no nosso país. Infelizmente a realidade mostra que tínhamos razão!

Temos escrito, desde há muito tempo, que "[a] variação de preços é apenas um sinal do estado do equilíbrio entre oferta e procura.

As suas principais causas são as variações da moeda destinada a transacções (cujo factor mais óbvio é a variação da quantidade de moeda) ou da quantidade de produtos oferecidos num dado mercado (seja qual for a causa). Em Angola, a principal causa da inflação é, contudo, a variação do rendimento petrolífero.

Quando o rendimento petrolífero cresce, a oferta de divisas no mercado cambial aumenta, baixando a quantidade de kwanzas necessária para comprar uma unidade de moeda externa. Os preços em kwanzas baixam, fazendo crescer o volume das importações, o que aumenta a quantidade de produtos disponíveis, baixando os preços. No entanto, simultaneamente, aumenta a procura de divisas no mercado cambial, o que actua em contraponto, até se alcançar um novo equilíbrio ou haver nova variação dos rendimentos petrolíferos, o que normalmente acontece primeiro. Quando os rendimentos petrolíferos baixam, o processo é quase exactamente o recíproco: aumento das taxas de câmbio, subida do preço em kwanzas, redução das importações, escassez, menor procura de divisas no mercado cambial, até se restabelecer algum equilíbrio após fortes constrangimentos ao consumo, à produção (matérias-primas e serviços às empresas) e ao investimento.

Ao tentar controlar a inflação através da oferta monetária, o BNA é muito pouco eficaz para a estabilização estrutural dos preços. A inflação, como toda a economia, sobe e desce ao sabor dos preços do petróleo!

Enquanto a produção nacional decrescer face à procura e continuar dependente de um produto de exportação em fase de declínio da produção e com preços muito voláteis, uma política estritamente monetária pouco poderá fazer para travar a marcha inflacionária da economia."

Estas continuam, a nosso ver, as teses mais válidas sobre a inflação no nosso país. Infelizmente a realidade mostra que tínhamos razão!

Várias fontes mostram uma subida generalizada dos preços em Junho. Por exemplo, o Expansão, calculou uma subida de 56% no informal e 39% no formal para 14 e 9 produtos da cesta básica(1), respectivamente. A generalidade das publicações económicas denota também uma variação extrema de preços. Nos produtos e serviços com que pudemos contactar encontrámos variações superiores a 50% para a generalidade dos produtos importados e entre 10% e 20% para a maioria dos produtos nacionais.

O INE não conseguiu, mais uma vez, fazer reflectir a subida efectiva dos preços nos números da inflação. Como era esperado, o INE em vez de reconhecer o terramoto dos preços, apenas registou uma pequena subida de 0,46% entre a inflação de Maio e Junho. Por exemplo, o INE diz-nos que os preços da alimentação subiram muito mais nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março do ano passado, quando efectivamente estavam a descer significativamente, do que em Junho deste ano, quando aumentaram consideravelmente!

Esta total dissociação entre os números da inflação do INE e a realidade já vem de longe. Em Outubro de 2019, quando o USD valorizou 30% em simultâneo com a introdução do IVA, a maioria dos preços subiu mais de 50%, mas o INE reportou uma taxa de inflação de 1,6%, a subida mensal mais baixa entre Junho de 2019 e Março de 2022. Em 2022, o INE considerou que os preços da alimentação e bebidas não alcoólicas subiram 13,24%, quando, na verdade, desceram visível e significativamente. Portanto, estávamos à espera de um número do INE sem qualquer correspondência com a realidade para a inflação em Junho e, efectivamente, tal aconteceu!

Sabemos que a inflação é sentida de forma diferente por cada pessoa e que variações de 1% ou 2% não têm forma de ser percebidas sem cálculo. Porém, quando estamos perante valores completamente diferentes dos sentidos por todos e efectivamente verificados em quase todas as transacções, torna-se impossível permanecer indiferente.

Imaginemos que a inflação nos produtos alimentares tenha sido próxima do menor valor calculado pelo Expansão (39%). Como a alimentação e bebidas não alcoólicas representa 55%, teríamos um impacto de 21,45% nos preços. Será que os restantes produtos desceram de preço?

Para o INE, os preços da alimentação e bebidas não alcoólicas subiram apenas 1,46%, quer dizer, uma coisa que custava em Maio 1.000 kwanzas, custava em Junho apenas um pouco menos de 1.015 kwanzas; quem comprava 100 mil kwanzas de alimentação, em Maio, teria, em Junho, de pagar 101.460 kwanzas, uma subida de menos de 1.500 kwanzas para a alimentação mensal da família! Citando o colega Carlos Rosado de Carvalho, o INE tem de nos dizer onde anda a recolher os preços para irmos todos lá comprar!

(Leia o artigo integral na edição 736 do Expansão, de sexta-feira, dia 04 de Agosto de 2022, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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