Produção nacional e reformas face aos choques externos
Em períodos eleitorais, a história nos ensina, as decisões políticas tendem, inevitavelmente, a privilegiar o curto prazo. A nossa esperança é que sabendo que está em final de mandato, a actual governação poderá desejar ter como legado uma economia mais robusta e menos susceptível a choques externos. Então, qual será a escolha?
No mês passado, o Fundo Monetário Internacional publicou as Perspectivas Económicas Regionais para a África Subsariana, alertando para uma possível "pressão sobre ganhos económicos conquistados a custo". No caso de Angola, importa recordar que o país implementou um conjunto de reformas entre 2018 e 2021, com o apoio do FMI através do Programa de Financiamento Ampliado.
Como resultado da combinação dessas reformas com a recuperação do preço do petróleo nos mercados internacionais, Angola registou, em 2025, uma taxa de crescimento de 3,13%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, FIR Contas Nacionais Anuais Preliminares. Paralelamente, os relatórios do INE indicam uma desaceleração da inflação, que atingiu 15,7% no mesmo ano.
Contudo, o relatório do FMI assinala que o conflito no Médio Oriente veio introduzir riscos ao desempenho recente das economias da África Subsariana. Como é sabido, a guerra provocou um aumento do preço do petróleo e dos seus derivados.
À primeira vista, este cenário poderia beneficiar Angola enquanto exportador de crude. No entanto, tal não se verifica plenamente, uma vez que o país refina localmente apenas cerca de 20% do combustível que consome, apesar dos investimentos recentes, mantendo-se vulnerável a choques externos.
Acresce que Angola continua a importar uma parte significativa dos bens alimentares consumidos pela população, o que a expõe a um potencial "choque duplo": por um lado, o aumento dos custos de produção, impulsionado pela subida dos preços dos fertilizantes e combustíveis (essenciais, por ex., para a produção de electricidade) e, por outro, o encarecimento do transporte marítimo.
Estes factores tendem a ser repercutidos no consumidor final, podendo inverter a tendência recente de desaceleração da inflação. O relatório destaca ainda que economias fortemente dependentes do sector dos serviços, em particular do turismo, como o Ruanda e as Seychelles, já registam uma diminuição no número de visitantes.
Este ponto reforça a necessidade, já sublinhada em outras ocasiões, de que a aposta no sector de serviços (turismo) em Angola seja acompanhada por um rápido processo de industrialização, bem como por melhorias substanciais nas infraestruturas básicas.
Outro aspecto relevante prende-se com as remessas da diáspora, que poderão diminuir em vários países africanos, agravando fragilidades económicas. No caso angolano, dados do Banco Nacional de Angola indicam entradas de 3,6 milhões de dólares no segundo trimestre de 2025 e 3,5 milhões no terceiro. Embora Angola não dependa fortemente destas remessas, algumas famílias poderão sentir os seus efeitos.
Em sentido inverso, as saídas foram significativamente superiores: 79,2 milhões e 67,4 milhões de dólares, respectivamente. Perante este enquadramento, o FMI recomenda o reforço dos quadros monetários e cambiais, a mobilização de receitas internas, maior eficiência da despesa pública, reformas de governação e melhorias no ambiente de negócios, com vista a estimular o investimento privado e aumentar a produtividade.
Em Janeiro deste ano, o Comité de Política Monetária do BNA reduziu a taxa directora de 18,5% para 17,5% e a taxa da facilidade permanente de cedência de liquidez de 19,5% para 18,5%, mantendo inalterada a taxa da facilidade permanente de absorção de liquidez em 16,5%.
Já na reunião de Março, o BNA manteve as taxas de juro, optando por reduzir o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional de 18% para 17,5%. Estas decisões reflectiam, à data, algum optimismo. Todavia, tendo em conta que parceiros comerciais relevantes de Angola, como a China e a União Europeia, enfrentam aumentos nos custos de produção, é plausível que tais custos sejam transmitidos ao consumidor nacional.
Neste contexto, o combate à inflação importada deverá passar, sobretudo, pelo aumento da oferta interna de bens e serviços, mais do que pelo recurso exclusivo ao aumento das taxas de juro. O próprio relatório reconhece que será um desafio para os bancos centrais "encontrar um equilíbrio delicado entre controlar a inflação e apoiar o crescimento" (p. 8).
No caso angolano, a actuação do BNA deverá privilegiar políticas que incentivem a produção local, especialmente nos sectores que mais contribuem para as pressões inflacionistas. Dados do INE indicam que a classe de bens alimentares e bebidas não alcoólicas tem sido a principal responsável por essas pressões. Por fim, com a aproximação de mais um ciclo eleitoral, a recomendação do FMI de evitar aumentos excessivos da despesa pública pró-cíclica ou a valorização da taxa de câmbio real revela-se, na prática, difícil de seguir.
Em períodos eleitorais, a história nos ensina, as decisões políticas tendem, inevitavelmente, a privilegiar o curto prazo. A nossa esperança é que sabendo que está em final de mandato, a actual governação poderá desejar ter como legado uma economia mais robusta e menos susceptível a choques externos. Então, qual será a escolha?
Edição 875 do Expansão, sexta-feira, dia 08 de Maio de 2026













