O modelo parasitário chinês de expansão económica em Angola: A arte subtil da servidão voluntária!
A vantagem do primeiro é a conjugação de baixo custo e alta produtividade. O segundo, porém, é barato, mas ineficiente . O chinês vive para trabalhar; o angolano trabalha para viver. Uma visão ascética contra uma hedonista. A sociedade do bem-estar angolano celebra a opulência do descanso, enquanto a cultura oriental reverencia a abnegação laboriosa. Esta escolha tem um preço: o da soberania, o do futuro, o da eternidade e o da servidão voluntária!
"A arte suprema da guerra consiste em subjugar o inimigo sem combater."
Sun Tzu, A Arte da Guerra
No cenáculo oculto da geopolítica contemporânea emerge, com altivez milenar, uma entidade de semblante impassível e ambições astronómicas: a República Popular da China. Avança como um dragão em vigília meditativa, com a languidez da neblina matinal e a precisão cirúrgica de um esteta imperial. A sua investida, embebida em seda, reverbera no seio das nações frágeis como o rufar de bigornas.
A sua arquitectura de poder não se edifica com metralhas ou tambores de guerra. Antes, com silêncio. Cálculo. Omnipresença. Trata-se de um paradigma parasitário, cuja biomimética traduz a essência da estratégia: um organismo que se alimenta do hospedeiro sem jamais destruí-lo. Eis o seu acrónimo litúrgico, agora desdobrado em cada um dos seus pilares com exemplos angolanos: assim o modelo "parasitário" chinês deriva de "PARASITO"(1),
(PA) Pacífico: Sem invasões nem tropas, a China avança por vias diplomáticas e financeiras. Reconstrói estradas e hospitais em Angola, pagos com petróleo, numa aliança sem guerra, mas com soberania penhorada.
(RA) Rápido: Em menos de três décadas, a presença chinesa passou da periferia à centralidade. Bairros como o Zango, outrora nacionais, tornaram-se bastiões comerciais chineses, num domínio célere e eficaz.
(SI) Silencioso: A expansão opera fora do escrutínio público. A aquisição de terras e concessões no interior do país decorre em surdina, mas altera profundamente o tecido socioeconómico local.
(TO) Total: O modelo extravasa sectores. Vai da construção civil ao comércio, da agricultura às telecomunicações, infiltrando-se em toda a arquitectura económica nacional.
Entre os três arquétipos de interacção intraestatal - simbiótico (benefício recíproco), predatório (violência explícita), parasitário (exploração dissimulada) -, é no último que a China se transfigura em mestre alquimista. Angola, terra de riquezas geológicas e elites entorpecidas, converteu-se em laboratório privilegiado deste experimento imperial. Percorrer os polígonos industriais ou as ruelas poeirentas das nossas cidades é contemplar o retrato da dependência: estruturas erguidas com capital mandarim, operadas por mãos orientais, vendendo quinquilharias ao povo nativo. Os dividendos? Repatriados com diligência para o tesouro da China, que floresce à custa da seiva alheia.
Em Fevereiro de 2025, as reservas cambiais chinesas ascenderam a 3,22 biliões de dólares, enquanto o yuan se fortalecia face ao dólar, e o ouro atingia os 208,64 mil milhões de dólares.
A China ergue-se, qual Ícaro prudente, rumo ao zénite, enquanto Angola se arrasta, mármura, prisioneira da graxa petrolífera que a imobiliza.
Hélio-3: A pedra filosofal da era energética lunar
No rególito lunar jaz uma substância de brilho quase mítico: o Hélio-3. Este raro isótopo, autêntico relicário celeste, representa a promessa de transformação da matriz energética global. Um único quilo pode gerar entre 10 e 12 TWh, equivalente a 2.500 toneladas de carvão fóssil. Segundo a Bloomberg, 100 toneladas anuais bastariam para suprir toda a demanda energética da humanidade. A Lua, outrora inspiração poética, tornou-se eldorado silencioso das potências tecnocientíficas: apenas 25 toneladas de Hélio-3 seriam suficientes para alimentar, por um ano, toda a União Europeia.
Estima-se que a Lua contenha entre um e cinco milhões de toneladas métricas de Hélio-3, e que até 2050 se inaugure o primeiro reator de fusão baseado nesse elemento, prenunciando uma nova era energética. Enquanto isso, Angola permanece alheia - mergulhada na monocultura do petróleo e na inércia de um modelo extrativista. Urge despertar dessa letargia estratégica.
A China, por sua vez, já avança no xadrez cósmico, com as missões Chang"e 5 a 8, sendo a última prevista para 2028 com o objectivo de lançar os alicerces de uma Estação Internacional de Investigação Lunar. Enquanto Angola permanece surda a este novo paradigma, continua rendida ao culto do hidrocarboneto fóssil, encenando a sua estagnação à sombra de um império que já se projecta para além da estratosfera.
Do labor como ontologia: Uma disputa civilizacional
Na raiz deste hiato estratégico reside uma divergência ontológica sobre o labor. Para o pensamento confuciano, a produtividade (do trabalho) é prolongar o Génesis sideral, harmonizar-se com o cosmos, orar com os punhos. O trabalho é virtude e destino. Na tradição judaico-cristã, pelo contrário, o labor é penitência: "Com o suor do teu rosto comerás o teu pão" (Génesis 3,19). Daí que o feriado seja celebrado como ênfase da liberdade, não da produtividade. Criam-se pontes, feriados prolongados, não para produzir, mas para descansar. Enquanto o operário chinês se curva perante o tempo com fervor monástico, o trabalhador angolano exulta com a ociosidade. Entre ambos há um abismo: o do progresso contra a estagnação.
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