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Opinião

Quatro Horas

EDITORIAL

Para o ano, deixo apenas uma sugestão: publiquem as quatro horas em livro e ofereçam-nos 40 minutos de Presidente, com um discurso excelente como aquele que João Lourenço fez este ano na Assembleia das Nações Unidas.

Prometi a mim próprio que este ano não iria escrever sobre o Discurso sobre o Estado da Nação. Até porque, no ano passado, já tinha confessado publicamente a minha vontade de viver naquele País maravilhoso que nos foi apresentado. Depois do que ouvi este ano, essa vontade transformou-se quase numa obsessão.

Continuo sem saber exactamente onde fica esse País, que estradas lá vão dar ou se é necessário visto de entrada, mas estou cada vez mais entusiasmado. Parece ser um lugar extraordinário, onde tudo cresce, tudo melhora, tudo avança e os problemas, quando existem, estão sempre em vias de resolução. Um verdadeiro paraíso estatístico. Só tenho pena de continuar a viver neste outro.

Também não quero falar das quase quatro horas de discurso presidencial. Quatro horas! Não por falta de respeito pelo esforço físico de quem esteve de pé a debitar números, percentagens, realizações e relatórios, mas precisamente, por respeito. Pela saúde do Presidente, pela resistência dos deputados e, sobretudo, pela paciência dos cidadãos. Há limites para tudo, até para a capacidade humana de ouvir boas notícias. E quatro horas de felicidade nacional, sem direito a intervalo, é uma violência que nem os mais optimistas merecem.

Muito menos quero discutir a estratégia de comunicação. Até porque seria injusto responsabilizar o Presidente por uma decisão que, sinceramente, tenho dificuldade em acreditar que tenha sido só sua. Imagino uma equipa de assessores, especialistas e estrategas reunida à volta de uma mesa, a convencer o Chefe de Estado de que a melhor forma de mobilizar um país é obrigá-lo a ouvir quatro horas de inventário governamental.

Gostava de ter assistido à reunião. Sobretudo ao momento em que alguém terá dito: "Senhor Presidente, três horas é pouco. O povo precisa de mais uma." Não quero sequer recordar que qualquer manual elementar de comunicação política recomenda mensagens claras, curtas, mobilizadoras e capazes de criar uma ligação emocional com os cidadãos. Para os números existem relatórios, para as estatísticas existem documentos e para os balanços existem os ministérios. Um Presidente deve falar ao País, não ler-lhe o arquivo.

Deve apontar caminhos, inspirar confiança, reconhecer dificuldades e convocar os cidadãos para um projecto comum. Não precisa de provar que conhece todos os números da Administração Pública. Mas, como prometi não falar do discurso, também não vou perguntar aos assessores que teoria de comunicação política sustenta semelhante maratona. Nem que argumento técnico justifica transformar o momento político mais importante do ano numa prova de resistência colectiva. Fico por aqui, satisfeito por ter cumprido a promessa.

Para o ano, deixo apenas uma sugestão: publiquem as quatro horas em livro e ofereçam-nos 40 minutos de Presidente, com um discurso excelente como aquele que João Lourenço fez este ano na Assembleia das Nações Unidas. E, já agora, indiquem--nos no mapa onde fica aquele País maravilhoso...

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