"Não temos um mercado que dê ao designer o poder de imaginar e criar"
Com mais de 20 anos de experiência no mundo da moda, o modelo profissional Manuel Delgado defende que sempre considerou a moda um hobby devido às fragilidades estruturais da indústria têxtil em Angola, onde o talento e a criatividade dos designers e estilistas crescem, mas a matéria-prima continua escassa.
Destacado no mundo da moda e também amante do fotojornalismo. Conte-nos essa trajectória!
Fiz fotojornalismo durante muito tempo, ainda em 1996, com a Paula Simons e Mateus Gonçalves. Era uma fase em que não tinha poder de escolha nem direcção. Entretanto, tinha de fazer um pouco de tudo, porque, após licenciar-me em Contabilidade, trabalhei como pedreiro na construção civil .
Foi o seu primeiro emprego?
Sim. Embora já trabalhasse com a moda na altura, nunca a considerei um emprego, porque até hoje estamos a lutar para que a actividade tenha aceitação por parte do Ministério da Cultura ou tenha uma inscrição, um cartão, uma base de dados em que todos os intervenientes estejam estruturados.
E a moda?
Nunca considerei a moda um emprego. A moda é o meu hobby, porque dentro dessa actividade não consigo fazer uma declaração ao Estado sobre o meu rendimento. Por outro lado, as empresas de moda em si não estão preparadas, não têm facturas e não estão registadas. O mercado do jornalismo na época era muito fechado? Não, não era muito fechado. Antigamente, mesmo que não conhecesse o profissional, pelo seu trabalho era possível conhecê-lo. Na verdade, no mundo da comunicação, quem transmitia a mensagem ou o acontecimento real da história era a fotografia.
Quando é que percebe a sua paixão pela moda?
Já tinha um fascínio pela moda, sempre acompanhava o desenrolar da moda a nível mundial por meio de revistas. Nos anos de 1996 e 1997, surgiu a primeira agência de moda em Luanda, que funcionava no bairro Vila Alice, na ex-Liga Africana, e que me permitiu dar os primeiros passos e trabalhar com grandes manequins de topo como Karina Silva, Tatiana Durão, entre ou tros, que considero ser o embrião da moda em Angola.
Quando percebeu que havia uma oportunidade no mundo da moda?
Em 1999, quando surgiu o primeiro concurso Mr. Angola, em que Jorge Nelson foi eleito Mr. Angola e Fred Costa Mr. Fotogenia. Na altura, não me candidatei, mas comecei a sentir que havia uma oportunidade. Em 2001, houve o segundo concurso, candidatei-me e, para mim, aquele foi o momento mais importante da minha vida, porque éramos mais de 2.700 candidatos, passaram 20 e eu fiquei na 13.ª posição. Foi um momento deslumbrante, por que depois começaram a surgir várias propostas.
Na altura, quais eram as agências que dominavam o mercado?
Só existia a agência Mango, espaços geridos por Valdo e Karina Barbosa, que revolucionou a moda em Angola. Ela vinha da Europa e, cá, tínhamos a percepção de que o modelo precisava ter músculos ou ser robusto, mas ela trouxe a ideia de que o modelo deve ter um corpo delgado e esbelto.
A Karina Barbosa foi importante para a sua carreira?
A Karina revolucionou a moda. Quando criou a agência Step Moda, saí da Mango para trabalhar com ela. Trabalhámos durante quatro ou cinco anos, até 2006. Na altura, já estávamos nos melhores eventos a nível de Angola, como o Moda Luan da e o Angola Fashion Week. Entretanto, no mesmo ano, recebi um convite para fazer o primeiro desfile a nível internacional, no Japão. Em seguida, outros contratos começaram a surgir de países como Brasil, Portugal, Senegal e Mali. Fizemos uma excursão aos Estados Unidos e acabei por conhecer o mundo dentro da estrutura da moda.
Quando entra para o mercado cinematográfico?
Em 2012, após sair da Step Moda, apareceu o primeiro convite para trabalhar na TPA como actor. A primeira novela em que participei, cujo nome já não me recordo, foi em parceria com a Rede Globo, uma série gravada em Angola e exibida no mercado internacional. Depois surgiram propostas de empresas privadas que me permitiram interpretar personagens em séries, como "A Tala", "O Segundo Filho", "Win deck - Parte 2", entre outras.
Gostou de ter participado da novela Windeck?
Sim, gostei. Interpretar o investigador Chaves - um personagem ligado à segurança - foi e continua a ser maravilhoso, porque através da novela surgiram novas propostas, que trouxeram novas marcas para as quais faço publicidade. Ultimamente, tenho conseguido conciliar o cinema e a moda. Portanto, dentro dessa estrutura é que surge também a actividade de despachante...















