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"O artista só é lembrado quando vai servir alguma questão política"

KAYAYA JÚNIOR | PRODUTOR, APRESENTADOR, ACTOR

Com histórias marcadas por desafios que os artistas angolanos enfrentam no mundo da arte, Kayaya Júnior tem uma carreira demais de 30 anos. São dificuldades num contexto de grandes desafios estruturais, políticas públicas desfavoráveis para a classe que muitas vezes colocam o artista numa condição de pedinte. O actor, produtor, radialista e apresentador de televisão defende que o artista não deve ser lembrado apenas quando há um interesse político.

Considera que há muitos políticos que só olham para os artistas por conveniência?

Infelizmente, sim. O artista só é lembrado quando vai servir a alguma questão política, quando há um interesse. O artista não é lembrado porque é um membro da sociedade ou por ser um profissional que deve ser valorizado e respeitado. Já mudou muito, mas acredito que deveria melhorar. Por exemplo, acredito também que as instituições deveriam criar condições para que o artista não se sentisse um pedinte. Porque se formos ao histórico de muitas situações que aconteceram em Angola com muitos artistas, vemos que o artista está sempre numa condição de pedinte.

E quando é que os artistas são valorizados?

Quando há um período político mais alto, há muitos eventos e os artistas são lembrados e colocados a trabalhar. Isto de uma forma geral, na música, nas artes plásticas, no cinema, em tudo. Então temos desafios grandes, mas que acredito que conseguimos ultrapassar. Porque enquanto povo, somos muito teimosos, temos muita criatividade e só precisamos ter uma direcção a nível de liderança mais comprometida com este povo, porque às vezes dá a sensação que nós somos dois povos.

Dois povos, como?

O povo normal que somos nós e o povo que nos lidera. É verdade, eu digo sempre isto, já digo há muitos anos, nos momentos em que estávamos a viver da humanidade. O universo coloca-nos muitos desafios e precisamos de lideranças mais excepcionais e, infelizmente, nós não as temos. Entretanto, acredito muito na juventude, no povo angolano por ter a capacidade de ultrapassar desafios sem ter uma orientação. Eu hoje fico muito feliz por ver muita gente jovem a fazer coisas diferentes, a escrever, a produzir, a compor, sei lá, a ganhar o jogo. Mas por iniciativa própria, quase sem suporte institucional. Isto prova que somos realmente um povo grande.

Olhando para todos os desafios aqui apresentados, considera que é possível viver da arte em Angola? E de que maneira?

Sim, é possível. Sendo muito corajoso, resiliente, teimoso e, ao mesmo tempo, dedicado e focado naquilo que está a fazer. Porque é possível. Eu vivo da minha arte, vivo do meu ambiente de trabalho, e estou há mais de 35 anos nesta área.

Mas é fácil?

Não! Eu tenho dito, principalmente a profissionais da música, que só não trabalha em Angola quem realmente não quer. É possível. Não é fácil, mas é possível. E nós muitas vezes perdemos a oportunidade de fazer melhor, estou a generalizar, mas olhando para a classe artística, muitas vezes os artistas não têm rendimento. Entretanto, os artistas também têm que melhorar muito a sua postura profissional, têm que amadurecer e colocar na cabeça que aquela é a sua ferramenta de trabalho. Então, ele não pode brincar, deve evitar chegar atrasado a reuniões, ou seja, ele não pode chegar depois do cliente. Quer dizer, há um conjunto de coisas, e vemos muitos artistas a ficar numa prateleira, porque eles colocam-se lá.

Os artistas não têm comprometimento e disciplina?

Ainda hoje há artistas que se marcarem um soundcheck para às 17h eles chegam ao local às 18h, isso faz com que na próxima vez a produção não o convide para trabalhar. Enquanto produtor, já tive essa experiência. Chamo um artista, seja em que área for, para um evento, se ele me falhar a primeira vez, só tem uma segunda oportunidade. A terceira não vou chamar.

Depois, o que acontece?

Vão ficando catalogados, e dizem, não chames o "Fulano" porque ele é atrasado, é conflituoso. E, o resultado, muitas vezes é depois vermos talentos com muito valor, bons artistas, mas são maus profissionais e estão numa prateleira. Enquanto, se calhar, outros artistas com menos talento, continuam a trabalhar arduamente para crescerem e terem uma posição na sociedade. Então, há pessoas que me perguntam, mas tu continuas a fazer arte, a carregar, a empurrar? Respondo que tudo requer sacrifício, foco e dedicação, porque às vezes o primeiro a chegar é o último a sair. E, questionam, mas não és tu o chefe? Não, não sou o chefe, eu sou mais uma peça.

O mercado nacional oferece futuro para quem investe nesse ramo?

Ainda é muito complicado e difícil. Mas quem der os primeiros passos agora vai de certeza fazer parte de uma transformação. Há muita gente a falar sobre o cinema, produções, etc. Há muitos empresários que já começam a ter uma visão e maior sensibilidade para apoiar produções do género, mas é preciso muito mais. Nós precisamos de ter uma produção em quantidade para poder haver qualidade e ocuparmos o nosso espaço no mercado do cinema mundial. Angola está à procura deste espaço, com tantas produções que tem estado a fazer, e note-se, com o esforço e sacrifício de cada um dos profissionais e produtoras que existem. Embora, não seja fruto de um pacote, de uma política cultural que fomente isso, pois infelizmente não existe. Mas quem sabe com esta nova "febre" que está por aí, as instituições começam a despertar para a necessidade de serem elas a fomentarem as produções nacionais.

Leia o artigo integral na edição 859 do Expansão, sexta-feira, dia 16 de Janeiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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