Angola (2023-2025) | Rácios prudenciais, rentabilidade e risco latente no sistema bancário
A grande batalha que se avizinha não é a da solvência, já conquistada, mas a da utilidade estratégica da banca no processo de crescimento, diversificação e inclusão financeira. A muralha está sólida. O desafio histórico será saber quando, como e para quem abrir as portas.
A banca como bastião silencioso do Estado
"A estabilidade é a mais rara das conquistas" John Kenneth Galbraith
Num tempo em que as economias periféricas caminham sobre terrenos movediços - sujeitos a choques exógenos, ciclos de commodities e constrangimentos estruturais - o sistema bancário assume a função de bastião silencioso do Estado. Não proclama vitórias; sustenta equilíbrios. Os dados prudenciais de 2023, 2024 e do primeiro trimestre de 2025 revelam uma arquitetura financeira que não é apenas técnica, mas também estratégica: cada rácio é um posto avançado, cada variação um sinal cifrado no teatro da estabilidade macrofinanceira.
I. A muralha da solvabilidade
"Quem defende tudo, nada defende" Frederico, o Grande
A adequação dos fundos próprios exprime a espessura da muralha que separa a banca do colapso sistémico. Em 2023, o rácio de 26,0% revela uma capitalização superlativa, quase excessiva, própria de um sistema que privilegia a defesa em detrimento da ofensiva.
Em 2024, a descida para 20,7% não traduz fragilidade, mas sim redistribuição estratégica do capital: maior exposição ao risco ponderado, maior disposição para financiar a economia real. Já em 2025 (1.º trimestre), a recuperação para 22,9% indica recomposição prudencial, como quem reforça as defesas ao pressentir a instabilidade do horizonte. Não há improviso; há cálculo.
II. Tier 1 : O núcleo irredutível do poder financeiro
"A força reside no essencial" Sun Tzu
O rácio Tier 1 representa o núcleo duro da solvabilidade - capital de máxima qualidade, irredutível à retórica. Em 2023, o nível de 24,6% revela um sistema ancorado em fundamentos sólidos. A descida de 19,7% em 2024 acompanha a mobilização estratégica do capital, sem jamais comprometer o núcleo vital. Em 2025, a subida para 21,9% confirma que o coração financeiro foi preservado. A banca angolana expõe-se, mas não se desnuda; avança, mas não se desarma.
III. Crédito malparado (NPL) A memória das batalhas passadas
"As dívidas são as cicatrizes invisíveis das guerras económicas" Hyman Minsky
O rácio de crédito em incumprimento é o arquivo vivo das fragilidades acumuladas. Em 2023, 15,6% já denunciavam heranças pesadas de ciclos anteriores. O agravamento para 19,2% em 2024 reflete o impacto retardado da desaceleração económica, da inflação e da debilidade de certos sectores produtivos. Em 2025, a redução para 17,2% sugere um processo de depuração: reestruturações, provisões reforçadas, maior rigor na concessão de crédito. A ferida persiste, mas deixou de sangrar com a mesma intensidade. IV. Rendibilidade dos capitais próprios : A arte de lucrar sob contenção
"A rentabilidade é a recompensa da disciplina" Peter Drucker
A rendibilidade dos capitais próprios revela um paradoxo apenas aparente. Em 2023, o ROE de 21,2% já indica um desempenho elevado. Em 2024, o salto para 24,8% demonstra uma banca capaz de extrair valor mesmo em contexto adverso, dominando custos e margens com rigor quase monástico. Em 2025, o patamar de 29,0% alcança níveis excecionais. Não se trata de exuberância imprudente, mas de eficiência estratégica: lucro que nasce da contenção, não do excesso.
V. Crédito/depósitos: A intermediação ainda por cumprir
"O capital que não circula adoece" Joseph Schumpeter
O rácio crédito/depósitos expõe a timidez estrutural da intermediação financeira. Em 2023 e 2024, os valores de 2,9% e 3,0% revelam excesso de liquidez e aversão ao risco. A banca acumula, mas empresta pouco.
Em 2025, a subida para 5,2% é um sinal embrionário de reanimação. Contudo, o potencial permanece largamente inexplorado. A poupança existe; o desafio é transformá-la em investimento produtivo sem comprometer a estabilidade.
VI. Incumprimento líquido de provisões : O risco residual domesticado
"O perigo maior não é a perda, mas a ilusão de segurança" Nassim Nicholas Taleb
O indicador líquido de incumprimento de provisões, persistentemente negativo (-13,6% em 2023; -18,5% em 2024; -12,9% em 2025), revela que as perdas continuam a consumir capital de base. O agravamento em 2024 traduz reconhecimento tardio de riscos; a melhoria em 2025 sugere que o pico correctivo poderá ter sido ultrapassado. O risco não foi eliminado - foi contido, monitorizado, disciplinado.
Da fortaleza defensiva ao instrumento do futuro
"A estratégia é escolher o que não fazer" Michael Porter
O sistema bancário angolano apresenta-se como uma fortaleza bem guarnecida: capitalizada, lucrativa e prudente, mas ainda excessivamente defensiva. A grande batalha que se avizinha não é a da solvência, já conquistada, mas a da utilidade estratégica da banca no processo de crescimento, diversificação e inclusão financeira. A muralha está sólida. O desafio histórico será saber quando, como e para quem abrir as portas.
Edição 864 do Expansão, sexta-feira, dia 20 de Fevereiro de 2026













