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Análise

Mercado segurador angolano | Entre o crescimento financeiro e o desafio da massificação

ANÁLISE

Os números de 2025 sugerem que o crescimento do mercado em valor poderá estar a resultar de uma concentração da produção em contratos de maior dimensão ou com prémios médios mais elevados, em vez de resultar de uma verdadeira expansão da base segurada na economia.

Os dados mais recentes do mercado segurador angolano relativos ao exercício de 2025 revelam um cenário que, à primeira vista, pode parecer sobejamente positivo. O volume de prémios brutos emitidos cresceu de cerca de 473,7 mil milhões de kwanzas em 2024 para aproximadamente 586,9 mil milhões em 2025, o que representa uma expansão na ordem dos 24%.

Este crescimento nominal, num contexto económico ainda marcado por diversos desafios estruturais, poderia ser interpretado como um sinal inequívoco de dinamismo do sector.

Contudo, uma leitura mais cuidadosa dos indicadores disponíveis sugere que a realidade é mais complexa e exige uma análise qualitativa mais profunda do que simplesmente a evolução do volume de prémios. Com efeito, um dos elementos mais relevantes que emerge destes dados é a aparente dissociação entre o crescimento financeiro do mercado e a evolução da sua base de clientes.

Enquanto os prémios aumentaram de forma expressiva, o número de apólices emitidas reduziu-se de cerca de 1,13 milhões em 2024 para aproximadamente 701 mil em 2025, representando uma diminuição próxima de 38%. Mesmo admitindo que possam existir ajustamentos metodológicos ou alterações na forma de contabilização das apólices, a magnitude desta redução dificilmente pode ser ignorada.

Na prática, estes números sugerem que o crescimento do mercado em valor poderá estar a resultar de uma concentração da produção em contratos de maior dimensão ou com prémios médios mais elevados, em vez de resultar de uma verdadeira expansão da base segurada na economia. Este fenómeno levanta uma questão estrutural para o sector segurador angolano: estará o mercado a crescer em profundidade ou apenas em valor financeiro?

A distinção não é meramente estatística. Um crescimento baseado sobretudo em grandes riscos corporativos ou em carteiras de maior dimensão pode contribuir para a robustez financeira das seguradoras, mas não necessariamente para a massificação do seguro na sociedade.

Em economias onde a taxa de penetração do seguro ainda permanece relativamente baixa, como é o caso de Angola, o verdadeiro indicador de maturidade do sector não se mede apenas pelo volume de prémios, mas pela capacidade de alargar a protecção seguradora a um número crescente de cidadãos, famílias e pequenas empresas. Outro indicador que merece particular atenção é a evolução dos custos com sinistros. Os dados disponíveis apontam para um aumento significativo, passando de cerca de 161,4 mil milhões de kwanzas em 2024 para aproximadamente 242,5 mil milhões em 2025, o que representa um crescimento próximo de 50%. Este aumento é significativamente superior ao crescimento registado nos prémios e traduz-se numa subida da taxa média de sinistralidade do mercado, que passou de cerca de 34% para aproximadamente 45%.

A subida da sinistralidade constitui um sinal importante do ponto de vista técnico. Por um lado, poderá reflectir um aumento real da ocorrência de sinistros em determinados ramos de seguro, nomeadamente em áreas como o seguro automóvel ou determinados riscos patrimoniais. Por outro lado, poderá também indicar uma maior maturidade do mercado no que diz respeito à utilização efectiva das coberturas contratadas.

Em muitos mercados emergentes, a sinistralidade tende a crescer à medida que os consumidores passam a compreender melhor os seus direitos e a recorrer com maior frequência aos mecanismos de indemnização previstos nas apólices. Contudo, quando o crescimento dos custos com sinistros ultrapassa de forma significativa o crescimento dos prémios, as seguradoras enfrentam inevitavelmente pressões técnicas acrescidas sobre as suas carteiras.

Esta realidade reforça a importância de políticas rigorosas de subscrição, de uma gestão eficiente dos processos de sinistros e de mecanismos eficazes de prevenção da fraude. Ao mesmo tempo, exige um investimento contínuo em análise de dados, avaliação actuarial e gestão do risco, áreas que se tornam cada vez mais determinantes para a sustentabilidade financeira das empresas seguradoras.

Neste contexto, o balanço de 2025 pode ser descrito como um ano de crescimento financeiro acompanhado por sinais claros de transformação estrutural do mercado. O sector demonstrou capacidade de expansão em termos de volume de negócios, mas também evidenciou desafios relevantes relacionados com a diversificação da base de segurados e com a gestão do risco técnico.

É precisamente neste ponto que se coloca a questão central para 2026 e para os anos seguintes: qual deverá ser a prioridade estratégica do mercado segurador angolano? A resposta parece apontar para um caminho relativamente claro: a massificação dos seguros. Em termos práticos, isto significa aumentar a taxa de penetração do seguro na economia, integrando progressivamente mais famílias, micro-empresas e pequenos operadores económicos no sistema de protecção seguradora. Num país onde uma parte significativa da actividade económica ainda se desenvolve no sector informal, este desafio assume uma dimensão particularmente relevante.

A expansão dos seguros não pode depender exclusivamente do crescimento dos grandes contratos corporativos. Para que o sector desempenhe plenamente o seu papel no desenvolvimento económico e social, será necessário apostar em soluções que permitam democratizar o acesso ao seguro, tornando-o mais acessível, mais simples e mais adaptado às realidades da população.

Leia o artigo integral na edição 869 do Expansão, sexta-feira, dia 27 de Março de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

*NEWTON AGOSTINHO, Advogado

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