"Não existem corajosos que queiram embarcar nesta odisseia do jazz"

"Não existem corajosos que queiram embarcar nesta odisseia do jazz"
Foto: D.R.

Tem uma enorme voz, é apaixonada pelo jazz, mas gosta de vaguear por outros segmentos dentro da improvisação e livre interpretação, que define este estilo. Katiliana diz que o jazz para ajudar a fomentar o turismo e fazer crescer a economia precisa de investimento. A pandemia adiou o lançamento do seu primeiro trabalho discográfico.

Como é que ganhou esta paixão pela música e entrou no mundo do jazz?

Comecei a cantar jazz muito tardiamente. Embora eu já ouvisse alguns artistas do estilo, não sabia que eram tidos como artistas propriamente de jazz, como o caso de Louis Armstrong. O gosto nasceu dentro da minha convivência familiar, os meus pais são apreciadores de música. O meu pai tinha as matrizes africana e latina, a minha mãe tinha o lado muito americano e europeu. Sem esquecer as músicas angolanas, os nossos clássicos. Foram eles que me ajudaram a desenvolver esta paixão pelo jazz e por outros estilos.

Tem figuras nacionais e estrangeiras que lhe serviram de influência ou inspiração?

Imensas. Antes de falar das influências nacionais, devo começar pelas internacionais, que são os fundadores do jazz. Embora acredite que o estilo vem de uma matriz muito mais africana e os americanos só deram continuidade. Falo de Louis Armstrong, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Dinah Washington, que fazia uma fusão e sinto que me identifico muito com ela, e obviamente que muitas cantoras - Betty Carter, a grande Rachelle Ferrell identifico-me muito com o jazz dela, e ainda The Marshall Brothers, grandes senhores, grandes figuras no mundo do jazz.

E das vozes nacionais, quem destaca?

Eu ouvia os Mingas, principalmente o André Mingas. Digamos que foi uma pessoa que acabou por introduzir misturas de jazz noutros estilos nossos, como a massemba. O Filipe Mukenga, embora sinta que é uma coisa um pouco mais virada para a massemba, é um pouco mais doce, mais bossa nova e virada também para a linha Djavan, sem esquecer os ritmos africanos e angolanos.

Só fez referência a músicos mais velhos. E os mais novos?

Nos mais recentes, destaco o Gabriel Tchiema, o Ndaka Yo Wini, que fez um trabalho muito bonito no seu disco. O Totó, não considero uma coisa muito jazz, mas vejo que tem um afro beat muito bom. A nível de mulheres, falo da Afrikkanitha, não só por ser minha prima, mas por ser uma grande senhora que desenvolveu muito este movimento. Tem trabalhos lindíssimos, espectaculares, com uma fusão africana que são realmente muito interessantes.

Falou dos cantores, e ao nível dos compositores?

A nível de escrita, obviamente o Filipe Zau. É uma óptima escolha para a composição. Acho que se está a perder muito este factor de vermos o conteúdo da escrita desenvolvida nas nossas músicas. Daí que entristece-me quando o conteúdo das músicas acaba por ser um pouco pejorativo. Mas as pessoas dizem que é a realidade. Prefiro continuar a ouvir um "Rosa Baila" que não é um estilo que eu faça, a kizomba, tem uma produção super fantástica, num estilo bem à nossa maneira e uma letra espectacular.

O que é que representa o jazz para si?

O jazz é vida, é criatividade, mas também é algo abstracto e complexo. Ao longo dos anos, foi sofrendo transformações e claro que o que se fazia nos anos 20 não é o mesmo que se faz nos dias actuais. É completamente diferente, mas representa o espírito de pedagogia e considero-o como se fosse a ópera da música negra. Acho que é a melhor forma de definir o jazz.

Em Portugal, participou nos concursos "Ídolos" e "Operação Triunfo". Já tinha esta ligação ao jazz?

Nessa altura, já tinha despertado o interesse pelo jazz. Tenho de destacar que nestes concursos tive duas grandes mentoras, a Maria João e a Paula Oliveira, que são grandes referências a nível do jazz em Portugal e pude beber muito delas. A Paula Oliveira ao nível de técnicas, de como eu me devia defender, e explicou-me que quando as músicas eram dadas, eu devia dar um toque meu e não ser apenas um copy paste. A Maria João deu-me muito a nível de improviso, de tentar brincar com as harmonias. Eu tenho esta característica do improviso que no jazz é muito importante.

Que análise faz do actual momento do jazz em Angola?

Posso falar de acordo com o que vejo e que está a acontecer a nível do jazz em termos globais. Sinto que os artistas do estilo têm renascido nos últimos tempos. Posso não dizer assim artistas do jazz, mas com alguma sonoridade do estilo, com influências jazzísticas. Mas também tem o lado dos músicos. A maioria dos músicos que actuam em muitos espectáculos vem de uma base muito religiosa, que lhes dá a perspicácia de descobrir outros estilos e um deles acaba por ser o jazz. Sinto que existem artistas e músicos que vão pesquisar e que estão a desenvolver as suas valências a nível de habilidades artísticas.

E relativamente à realização de espectáculos?

Sinto a falta de promotores sérios, responsáveis e credíveis que queiram embarcar nesta odisseia do desenvolvimento do jazz em Angola. Temos as condições que temos no País, não temos salas, que são importantíssimas para grandes eventos no jazz ou em qualquer outro estilo. Mas sobre o jazz, existe pouco apoio no que concerne ao investimento de espectáculos ou concertos. Não existem grandes corajosos que queiram embarcar nesta odisseia do jazz em Angola. Vemos muitos promotores de eventos voltados para a questão da música comercial que são associados a grandes marcas, Unitel, Movicel, Sons do Atlântico, mas não vejo grandes investimentos no que diz respeito ao jazz.

(Leia a entrevista integral na edição 624 do Expansão, de sexta-feira, dia 14 de Maio de 2021, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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