Meios digitais de pagamentos já movimentam metade do dinheiro da rede multicaixa
Tal como noutros países, o caminho desenhado em 2019, com o lançamento do MCX Express e dos pagamentos online, aponta para um futuro sem cartões e com formas de pagamento invisíveis. No entanto, à medida que a digitalização avança, os desafios de infraestruturas e de cibersegurança exigirão também mais ao País.
Os meios de pagamento digitais já representam quase metade das transacções realizadas na Rede Multicaixa em Angola. Em 2025, o Multicaixa Express, as ordens de pagamento digitais (H2H), as compras online e os pagamentos por código QR movimentaram 22,7 biliões Kz, o equivalente a 49,3% dos 46,0 biliões Kz transaccionados no sistema, segundo cálculos do Expansão com base em dados da Empresa Interbancária de Serviços (EMIS).
O volume movimentado por meios digitais cresceu 56,5%, para 22,7 biliões Kz, face aos 14,5 biliões Kz transaccionados em 2024. Esta dinâmica revela que a forma como os angolanos manuseiam o dinheiro está a mudar. Tal como em países mais avançados tecnologicamente, em Angola esta migração para o digital é também irreversível, ainda mais num território onde cerca de 65% da população tem menos de 25 anos.
A tendência crescente da digitalização das transacções financeiras foi liderada pelo canal mobile interbancário MCX Express, com mais de 19,7 biliões Kz movimentados (87% do total) em mais de 2.141 milhões de operações ao longo de 12 meses, registando um crescimento de 56% face a 2024. Desde o início de 2025, o MCX Express tornou-se o canal favorito dos angolanos na Rede Multicaixa, ultrapassando largamente, em conjunto, as operações realizadas nos Caixas Automáticos (ATM) e nos Terminais de Pagamento Automático (TPA).
As ordens de pagamento host to host (H2H), efectuadas através da conexão directa e automatizada entre os sistemas (hosts) de duas instituições (geralmente um banco e uma empresa ou rede de pagamento) contribuíram com 10% dos valores transaccionados pelos meios digitais. Já as compras por código QR via MCX Express, que começaram a ser contabilizadas em Abril de 2024, três meses após o seu lançamento pela EMIS, registaram um volume transaccionado de 572,9 mil milhões Kz ao longo de 2025.
Em 2024, o valor era de apenas 11,7 mil milhões Kz, o que corresponde a um crescimento de quase 50 vezes. Por outro lado, as compras online, através das Gateways de Pagamentos Online (GPO), que permitem às lojas virtuais processar pagamentos com dados de cartões, movimentaram 144,1 mil milhões Kz, representando um crescimento superior a 167% em relação a 2024. Embora as compras online ainda sejam residuais no conjunto das transacções financeiras digitais da rede, o crescimento acelerado das lojas virtuais (e-commerce) no País começa a acompanhar uma tendência global, em que os centros comerciais físicos se consolidam cada vez mais como espaços de lazer e de experiência.
Trata-se de um reposicionamento dos grandes shoppings após 2020, ano em que as compras online dispararam em todo mundo devido à pandemia da Covid-19. Em termos globais, o forte crescimento dos meios digitais de pagamento em Angola indica, sobretudo, que as transacções financeiras da população bancarizada passam cada vez mais por dispositivos digitais, como smartphones, tablets e páginas web em computadores, em sintonia com a tendência mundial. Ainda assim, limitações como as infraestruturas de conectividade, a taxa de penetração móvel relativamente baixa (75% por cada 100 habitantes) e uma bancarização inferior a 35% continuam a travar um crescimento mais acelerado dos serviços de pagamentos virtuais.
Quais são os ganhos?
Este movimento, acompanhado pelos angolanos, tem conduzido, em vários países do mundo, a uma quase desmaterialização do dinheiro físico, colocando progressivamente em desuso os meios de pagamento tradicionais. Para Paulo Araújo, director-geral da Wiconnect, com a digitalização das transacções financeiras, para além da eficiência operacional, os meios digitais desbloqueiam uma nova fronteira de valor, nomeadamente a monetização de dados transaccionais.
"A digitalização cria uma nova classe de activos intangíveis. Estes dados permitem o desenvolvimento de modelos de risco ajustados à realidade angolana, possibilitando o lançamento de seguros paramétricos e produtos de crédito dinâmico que seriam impossíveis num sistema dominado pelo numerário", afirma.











