Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

Economia

Barril de petróleo acima dos 70 USD reduz défice em 2 biliões Kz

OGE 2026 APONTA A DÉFICE DE 3,8 BILIÕES KZ COM BARRIL A 61 USD

Os preços do barril não param de crescer nos mercados internacionais. A curto prazo Angola beneficia com o conflito no Médio Oriente, com receitas fiscais superiores à que esperava, já a longo prazo a história é outra, uma vez que a inflação está sempre à espreita.

O ataque de Israel e EUA ao Irão fez disparar os preços do petróleo nos mercados internacionais para valores bastante acima dos 61 USD inscritos no Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026 e permitem antever um crescimento das receitas fiscais petrolíferas com a exportação do "ouro negro".

Vários analistas nacionais e internacionais antevêem que os preços que actualmente estão acima dos 80 USD possam ultra passar rapidamente os 100 USD caso não se verifique um cessar-fogo nos próximos tempos. Quanto mais tempo os preços estiverem nestes patamares, maior é a probabilidade de o preço médio superar os 61 USD inscritos no orçamento para este ano que aponta a um défice orça mental de 3,8 biliões Kz, equivalente a 2,8% do PIB.

De acordo com o relatório de fundamentação do OGE, mais concretamente o Resumo dos Impactos de Sensibilidade Sobre o Preço do Petróleo, caso o preço médio ronde os 72 USD esse défice orçamental reduzirá para 1,3% do PIB, equivalente a 1,8 biliões Kz.

Em sentido inverso, caso o preço médio reduza para 50 USD, isso agravará o défice para 5,8 biliões Kz, equivalente a 4,3% do PIB. Contas feitas, 11 USD a mais, ou a menos, representam uma receita adicional ou a menos do a 2,0 biliões Kz. Segundo o economista e gestor Álvaro Mendonça, para apurar os efeitos que esta alta de preços e as consequências deste conflito na economia angolana é preciso, primeiro, tentar perceber quanto tempo vai durar. "Ou seja, se os efeitos imediatos e conjunturais se transformarão em estruturais", sublinha.

Para já, o conflito paralisou o tráfego aéreo na região do Golfo, fechou o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% dos abastecimentos mundiais de petróleo, na sua maioria com destino à Ásia, incluindo China, Índia, Japão e Coreia, o que fez disparar o preço do petróleo e dos habituais valores refúgio, como o ouro ou o franco suíço.

"O efeito sobre o preço do petróleo e do gás já tem contornos estruturais. A resposta iraniana aos ataques dos EUA e Israel foi cirúrgica e muito inteligente. Arrasou a maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita, a mega fábrica de GLP do Qatar, o hub petrolífero dos Emiratos e alguns aeroportos da região e paralisou uma parcela importante da cadeia de abastecimento de petróleo e gás. Os mísseis iranianos foram direitos ao coração de uma parte importante da economia mundial e o impacto desses ataques vai prolongar-se pelo menos por dois ou três meses", admite.

Ainda assim, Álvaro Mendonça admite que no curto prazo a subida do preço do petróleo Brent e do gás vai beneficiar Angola. "Contas feitas, se o barril de petróleo se mantiver 20 USD acima do valor inscrito do OGE 2026, são mais 20 milhões de USD em receitas diárias para Angola. São mais de 6,26 mil milhões/ano, se contarmos apenas seis dias por semana. E isto sem contabilizarmos os ganhos com o Gás. Também é preciso esperar para vermos de o anunciado au mento da produção dos países da OPEP conseguirá estabilizar o preço do barril", defende.

Já a longo prazo, se o conflito se mantiver e a economia mundial "travar a fundo ou entrar mesmo em recessão, então não será bom para Angola, como não será bom para nenhum país do planeta". E não é só para a captação de receitas fiscais petrolíferas que a alta de preços do petróleo favorece, uma vez que quanto maior for o preço menos risco representa a divida soberana angolana.

Ou seja, esta alta de preços pode favorecer a descida dos juros dos títulos de divida angolanos nos mercados internacionais, e isto num ano em que o Governo prevê fazer uma nova emissão de títulos em moeda estrangeira, sejam Eurobonds ou Samurai Bonds, ou até outra designação qualquer, conforme fez saber na semana passada a ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa.

"Preços de petróleo e gás natural mais altos melhoram as perspectivas da economia angolana e diminuem o risco país. Dois argumentos para Angola conseguir financiar-se com taxas de juro mais baixas. Mas se o conflito se prolongar, a contabilidade entre o deve e o haver pode ser negativa para Angola. Mais inflação, maior risco decorrente das tensões geopolíticas, uma cadeia de abastecimentos mais cara pode trazer problemas para uma economia ainda muito importadora, como é o caso de Angola. E, neste caso, os custos serão bem maiores que os ganhos do petróleo mais caro", alerta.

Já o economista Heitor de Car valho, considera que este conflito deve demorar pouco tempo e terá pouco efeito nas contas anuais. No entanto, caso as previsões falhem e se assista a uma alta dos preços do petróleo e gás durante vários meses, o Governo deve "manter ou reduzir a despesa pública para preparar os tempos de entrada em força do petróleo iraniano e o aumento da produção da OPEP", bem como "reduzir a dívida e criar reservas, forçando mais empréstimos dos bancos à economia e criando reservas do Estado".

Considera ainda que não faz sentido rever o OGE e que se deve "limpar parte do backlog dos bancos para com os clientes". "O Tesouro deve antecipar o pagamento dos títulos ao BNA [que serviram para pagar o empréstimo do banco central ao Governo no ano passado] com a entrega de USD. Este, adicionalmente, deve ir ao mercado comprar os dólares excedentes para aumentar as reservas internacionais, mas mantendo a taxa de câmbio inalterada, com o mesmo esquema administrativo que tem usado para não a deixar desvalorizar", defende.

Leia o artigo integral na edição 866 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Março de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo