Botsuana declara "emergência" na saúde por falta de dinheiro
O segundo maior produtor de diamantes do mundo, a seguir à Rússia, viu as receitas das exportações afundar 56,1% em 2023, para os 4,7 mil milhões USD, comparativamente aos 7,3 mil milhões arrecadados em 2022. Dívidas do Ministério da Saúde e cofres do Tesouro vazios levaram a colapso na cadeia de suprimentos médicos.
O Botsuana declarou o estado de emergência de saúde pública, devido ao colapso da cadeia nacional de medicamentos e suprimentos médicos, numa altura em que o país enfrenta dificuldades de tesouraria pela queda nas receitas de exportação de diamantes, a principal fonte de divisas do país.
O estado de emergência foi declarado pelo Presidente do Botsuana, Duma Boko, na segunda-feira, num discurso transmitido em directo, durante o qual apresentou um plano multimilionário para rectificar a cadeia de suprimentos médicos, administrada por armazéns médicos centrais, após uma falha grave que "levou a uma grave interrupção no fornecimento de saúde em todo o país".0444 O plano, que contará com um financiamento emergencial de 18,7 milhões USD para compras aprovado pelo Ministério das Finanças, será supervisionado por militares e inclui cortes nos internamentos em hospitais privados, uma fatia significativa das dívidas do Ministério da Saúde, de 73,7 milhões USD.
"O trabalho continuará ininterruptamente até que toda a cadeia de valor das compras seja corrigida", afirmou o Presidente, admitindo que gerir a escassez seria "altamente sensível aos preços devido ao esgotamento dos cofres públicos" e aos cortes drásticos da ajuda dos EUA, que financiavam um terço da resposta ao HIV no Botsuana, segundo a UNAIDS.
A ruptura nos stocks inclui medicamentos para o tratamento do cancro, para o HIV e a tuberculose. "Os preços actuais [dos medicamentos] costumam ser inflacionados de cinco a 10 vezes. Nas actuais condições económicas, esse cenário não é sustentável", acrescentou o Presidente Boko, citado pelos media locais.
A economia do Botsuana foi fortemente afectada pela retracção no sector de diamantes, devido à queda dos preços no mercado global e à concorrência dos diamantes artificiais, a que se soma a diminuição na produção nacional com o esgotamento de algumas minas. O segundo maior produtor mundial, a seguir à Rússia, viu as receitas das exportações de diamantes afundar 56,1% em 2023, para os 4,7 mil milhões USD, face aos 7,3 mil milhões arrecadados em 2022 (ver infografia), abrindo portas a uma recessão económica, com uma queda de 3% do PIB, segundo o FMI.
Tendência que se mantém em 2024, com nova queda de 44,6% no valor das vendas de diamantes ao exterior, para 3,2 mil milhões USD, e que continua em 2025, segundo cálculos do Expansão, com base nas Estatísticas Económicas e Financeiras do Banco do Botsuana. Nos primeiros quatro meses deste ano, as exportações de diamantes não ultrapassaram os 1,1 mil milhões, menos 17,7% do que o valor do período homólogo de 2024, embora possa fechar o ano com mais receita (3,4 mil milhões USD), se se mantiver a média dos primeiros quatro meses.
Teste ao novo Presidente
A crise nos diamantes será o primeiro grande teste que o novo Presidente, eleito em 2024, enfrenta. Formado em Harvard, o advogado de 55 anos fez história ao derrotar o presidente Mok- -gweetsi Masisi - "sucessor escolhido a dedo pelo poderoso Ian Khama", o quarto Presidente do país -, como refere o jornalista Daniel Tineyi Makokera. A vitória, por larga maioria, de Duma Boko, da coligação Umbrella for Democratic Change (UDC), tirou do poder o Partido Democrático do Botsuana (BDP), que governou desde a independência em 1966.
A queda do presidente Mokgw- -eetsi Masisi "não foi apenas uma reviravolta política, foi uma ruptura no ADN político do Botsuana", sublinha Daniel Tineyi Makokera. "Durante décadas, o BDP foi sinónimo de estabilidade, prudência económica e de uma aliança sólida com a De Beers, o gigante dos diamantes que ajudou a construir o Botsuana moderno. Mas, por baixo da superfície deste chamado "milagre africano", o descontentamento fervilhava - em relação à desigualdade, ao desemprego entre os jovens e à percepção de que a vasta riqueza mineral do país não estava a ser distribuída", explica.
Quando tomou posse, o novo Presidente sinalizou a intenção de rever os contratos mineiros e apelou a maior transparência nas receitas do sector, indo além do seu antecessor. Masisi, como recorda o jornalista, tentou ter "maior controlo estatal sobre as receitas dos diamantes, desafiando a antiga parceria 50-50 entre o governo e a De Beers", o que lhe custou um apoio essencial na reeleição.
Leia o artigo integral na edição 841 do Expansão, de sexta-feira, dia 29 de Agosto de 2025, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)