Noruega obrigada a mexer no fundo soberano para equilibrar orçamento
A Noruega dispõe do maior fundo soberano do mundo e até agora não sabia o que fazer a tanto dinheiro poupado com as receitas do petróleo, mas isso mudou.
Pela primeira vez em duas décadas, o país é forçado a retirar dinheiro desse fundo para financiar o Orçamento do Estado.
Se a Noruega se sente ameaçada por uma provável crise, imagine-se a situação das economias dos países que dependem em exclusivo do 'ouro negro'.
Mas desenganem- se os mais distraídos. Pode parecer bizarro para países subsarianos, afectados pela 'maldição do ouro negro', falar-se em crise decorrente da queda dos preços do petróleo na Noruega. Com efeito, a Noruega não atravessa nenhum problema imediato de finanças públicas.
O grande problema é possuir excesso de dinheiro num gigantesco fundo financeiro, em relação ao qual o país parece não saber o que fazer e, ao mesmo tempo, enfrentar uma queda abrupta das receitas da indústria petrolífera, o que prefigura uma eventual ameaça de recessão. Se dúvidas houvesse para diferenciar a situação do país escandinavo face à de outros produtores de petróleo, a Noruega volta a ocupar em 2015 o 1.º lugar no 'Índice de Prosperidade Global'.
O país conquista o primeiro lugar, apesar de não ser o primeiro em oito das suas categorias, mas situando-se nos lugares cimeiros em todas as 10 categorias avaliadas. No fundo, a Noruega vive actualmente uma antevisão de crise ainda na afluência e abundância, em que é forçada a gerir a volatilidade dos mercados, mas sem estar na iminência de ruptura financeira ou bancarrota, como acontece com outros países afectados pela queda dos preços do petróleo.
A Noruega é uma pequena economia aberta, mas rica em recursos naturais, sendo que um quarto do seu PIB vem da extracção de petróleo e gás, maioritariamente destinados à exportação.
É o quinto maior exportador de petróleo e quarto país mais rico per capita. Até à crise da queda dos preços do petróleo, tudo corria suavemente neste reino escandinavo. O país criou há duas décadas um fundo soberano para, com essas receitas, prevenir qualquer percalço ou crise financeira inesperada, e antecipando o fim da era do petróleo.
É um país rico, com uma população reduzida de cinco milhões de habitantes, não tem praticamente corrupção e preparou-se para o fim desta riqueza súbita do petróleo, iniciando a diversificação da economia. Para além da pesca, vira-se agora para a exploração mineira.
A maioria dos outros países produtores de petróleo sofre da chamada 'síndrome holandesa', conhecida após a Holanda ter descoberto e explorado petróleo e gás natural no mar do Norte, na década de 60, e ter abandonado quase por completo outros sectores da economia.
Actualmente, o fundo soberano da Noruega dispõe de 882 mil milhões USD e continua a representar um porto seguro para os noruegueses, mas o simples facto de o governo ter sido forçado a retirar uma pequena fatia para financiar a despesa anual do Estado mostra que até os países mais ricos estão a ser duramente afectados pela contínua queda do preço do petróleo.
O fundo do petróleo, conhecido como 'Statens Pensjonsfond Utland', detém participações em mais de nove mil companhias em todo o mundo e uma carteira de bens imobiliários nas principais capitais mundiais. Criado há cerca de duas décadas, o fundo tem sido gerido parcimoniosamente e com extrema prudência, submetido a uma regra de ouro que impede que se gaste mais de 4% do seu valor anualmente.
Essa cifra nunca foi atingida. O fundo aumentou as receitas líquidas anuais de 3,8 % entre 1998 e 2014. Este ano, a ministra das Finanças anunciou um Orçamento do Estado que prevê a utilização de 2,6% do fundo (quase 24 mil milhões USD) e 2,8% no próximo ano, tendo, mesmo assim, desencadeando uma onda de protestos generalizados.
A maioria dos noruegueses defende intransigentemente a ideia de que as receitas do fundo devem ser guardadas para as gerações futuras. A fatia a utilizar no orçamento, cerca de 23,6 mil milhões USD, vai permitir ao governo compensar os prejuízos da queda das receitas petrolíferas e contribuir para os esforços de diversificação da economia, assim como pagar os custos da crescente onda migratória para o país.
A chefe do governo, Erna Solberg, revelou na semana passada que o seu executivo tenciona gastar 4,2 mil milhões de coroas com os cerca de 25 mil refugiados que chegaram recentemente ao país.
A proposta contou de imediato com a oposição dos democratas-cristãos na coligação governamental. Receios de inflação e desvalorização da coroa A oposição crítica ainda o recurso às receitas do fundo do petróleo por recear que tal injecção de dinheiro na economia possa provocar o aumento da inflação e depreciação da moeda.
As vozes mais críticas parecem ter alguma razão no que respeita à desvalorização da moeda, visto que, no final da semana, a coroa norueguesa se desvalorizou face às principais moedas, depois de o preço do barril de petróleo do mar do Norte ter caído para os 47 USD.
A coroa norueguesa desvalorizou-se 20% em 2014 face ao dólar, o que ajuda à competitividade das exportações do país a curto prazo, mas terá consequências sérias na economia em geral se essa perda de liquidez for persistente.
Analistas de mercado consideram, contudo, que será uma questão de tempo antes de a forte coroa norueguesa voltar a robustecer-se, apesar de o seu valor se situar agora no patamar mais baixo de sempre.
Caso os preços do petróleo subam, a coroa norueguesa será fortalecida, porque a economia do país continua muito dependente da indústria petrolífera. Mas, de acordo com os principais analistas do sector petrolífero, isso pode não vir a acontecer tão cedo, admitindo-se mesmo que o preço possa deslizar ao longo dos anos até uns catastróficos 20 USD o barril.
Para a Goldman Sachs, o excedente global de petróleo é ainda maior do que o estimado, pelo que este banco de investimento norte-americano acredita que o preço do petróleo possa cair até aos 20 USD por barril.
As previsões da Agência Internacional de Energia (AIE) diferem das da Goldman Sachs. A AIE acredita que a procura global melhorará em 1,7 milhões de barris diários em 2015, para 94,4 milhões de barris, a maior subida em cinco anos graças à queda do preço do petróleo. O preço do petróleo entrou em colapso em meados de 2014, caindo dos 110 USD o barril para 49 USD.
A acompanhar esta queda, o preço de outras importantes matérias- primas também caiu, nomeadamente do cobre. Por outro lado, os analistas de mercado temem que o recurso frequente às receitas dos fundos soberanos da Noruega, da Rússia e de alguns países do Golfo Pérsico possa acabar por ter também fortes implicações nos mercados financeiros internacionais.
À semelhança de outros países afectados com a quebra de receitas do petróleo, a Noruega aposta na diversificação da economia para reduzir a sua dependência das receitas do 'ouro negro'.
Agora, tal como nos restantes produtores de petróleo, resta à Noruega cruzar os dedos e esperar que da próxima reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 4 de Dezembro, em Viena, saiam orientações tendentes a reduzir a produção dos países-membros com vista à subida do preço do crude, o que vai beneficiar membros e não membros do cartel.











