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Opinião

A inflação do INE

EDITORIAL

Todos percebemos que o problema está seguramente na recolha dos preços, porque acredito que depois de os dados entrarem no sistema não há uma "mão fantasma" que os manipule, nem quero acreditar que o número final a apresentar publicamente dependa de critérios políticos e não de critérios técnicos.

Isto do INE publicar que a inflação acumulada de Junho e Julho foi de apenas 3,01% e de em Luanda ter sido de 3,87%, não é aceitável. Lembrar que a classe Alimentação e Bebidas vale 55,7% do ponderador, que só por si significa que se aumentar 30%, o índice final cresce pelo menos 16,71%. E já temos muitas dificuldades em encontrar produtos alimentares que tenham crescido apenas 30%. Daqueles que me lembro que mais consumimos nas nossas casas - farinha de mandioca, arroz, tomate, coxa de frango, batatas, cebola, azeite, entre outros - todos tiveram crescimentos acima dos 50%, com alguns a duplicar ou triplicar os preços. Pelo menos nas lojas e mercados onde me abasteço e onde toda a gente que conheço se abastece.

Aliás, antes de escrever este editorial, olhei atentamente para a lista dos sectores e produtos que fazem parte do índice para tentar perceber quais os que podem ter baixado ou aumentado apenas 3%. Encontrei apenas a água e electricidade, que estão numa categoria juntamente com os combustíveis (a gasolina aumentou 87,5%) e a habitação (que seguramente não teve baixa de preços no aluguer ou nas taxas de juro dos créditos de aquisição). E ainda assim esta classe tem apenas uma ponderação de apenas 5,8% no Índice de Preços do Consumidor.

Todos percebemos que o problema está seguramente na recolha dos preços, porque acredito que depois de os dados entrarem no sistema não há uma "mão fantasma" que os manipule, nem quero acreditar que o número final a apresentar publicamente dependa de critérios políticos e não de critérios técnicos. Também não se pode pôr em causa as formas de cálculo do INE, até porque sabemos que é uma empresa sujeita a auditorias externas, dotada de profissionais íntegros que certamente não iriam permitir a adulteração dos valores.

O estranho é que apesar de todos os contactos, mesmo informais, com a garantia que o jornal não os referenciava, não conseguimos perceber em que locais é que se fazem as recolhas dos preços. O máximo que conseguimos foi "é nos mercados". Que não quer dizer nada. Também contrariamente ao que acontece em quase todos os países que conheço, o índice grossista está 33% acima do IPC, o que me deixa ainda mais desconfiado.

Mas esta desconfiança aconteceu já em sentido contrário. No III e IV trimestre do ano passado os preços da maioria dos produtos caíram e o INE continuava a dar-nos evoluções positivas dos IPC. Em que raio de lojas, supermercados, mercados informais ou lojas de esquina vão os técnicos do INE recolher os preços?

Parece uma coisa simples, mas é a credibilidade das nossas instituições que está causa. Peço desculpa, mas "ninguém" acredita nestes valores!

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