Formados para o desemprego ou com guia de marcha para o aeroporto?
Se Espanha é a "cauda da Europa" no emprego jovem, Luanda corre o risco de ser o cemitério de talentos de uma geração inteira
Z (nascidos entre 1997 e 2012) foca-se, frequentemente, na sua relação nativa com o digital. Contudo, ao olharmos para os dados recentes da União Europeia - onde o desemprego jovem em Espanha ronda os 23% e a precariedade impede a independência antes dos 30 anos - percebemos que o mal--estar é mais bem geracional. Mas em Luanda, esta complexidade europeia traduz-se numa luta de sobrevivência extrema.
Aqui, a Geração Z não enfrenta apenas um mercado difícil; enfrenta um sistema que parece desenhado para a ignorar.
A Realidade de Luanda
Enquanto em Madrid ou Lisboa se discute a precariedade de contratos temporários e a inflação imobiliária, em Luanda a Geração Z vive num deserto de oportunidades formais. Se na Europa a precariedade é vista como uma fase de inserção, na nossa capital ela tornou-se o destino final.
O jovem luandense, muitas vezes mais resiliente e criativo do que o seu homólogo europeu por pura necessidade, vê-se preso. É gritante a desconexão: temos uma juventude que domina a tecnologia e a comunicação, mas que tenta entrar num mercado de trabalho com mentalidade de 1990.
O resultado está à vista de todos: uma massa crítica de licenciados a conduzir Yangos, a vender saldo ou a "desenrascar" no informal por falta de alternativa.
Se Espanha é a "cauda da Europa" no emprego jovem, Luanda corre o risco de ser o cemitério de talentos de uma geração inteira.
A Independência como Utopia
A precariedade estende-se à habitação. Se na Europa a saída de casa dos pais é adiada, em Luanda ela é, para a vasta maioria, uma impossibilidade matemática. Com rendas proibitivas e uma ausência total de crédito à habitação para quem inicia carreira, estamos a criar adultos financeiramente castrados.
A independência não é apenas um marco de maturidade; é o motor da economia. Sem ela, o consumo estagna e o país marca passo. Esta "normalização da problemática" é o maior perigo que Angola enfrenta. Não podemos continuar com o folclore do "jovem como futuro da nação" enquanto o presente lhes corta as pernas.
Marta Bickel, Professora na LAIS-British School of Angola














