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Opinião

Blockchain promessas e realidade e a proibição da mineração dos bitcoins

CONVIDADO

O blockchain provocaria o fim das grandes instituições financeiras, cujo poder reside na híper centralização e burocracia que lhes permite extrair da economia rendimentos desproporcionais à sua contribuição para o produto económico final. O blockchain seria a solução tecnológica para eliminar a discriminação e a desigualdade criadas pelos excessivos lucros gerados pela actividade improdutiva das instituições financeiras.

A inovação tecnológica está na base do processo de criação e transferência de valor na economia. Joseph Schumpeter considerou que "o impulso fundamental que põe e mantém em movimento o motor capitalista provém dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria"... "Este processo de Destruição Criativa é o facto essencial sobre o capitalismo".

Quando se discute se uma inovação tecnológica causará ou não a transformação radical da sociedade, estão em causa não apenas as características intrínsecas da tecnologia, mas igualmente as expectativas de lucro dos seus inventores e investidores. A avaliação dos benefícios da nova tecnologia não é um exercício objectivo e racional, é também uma questão de fé. A verdade sobre os argumentos apresentados pelos cépticos e pelos entusiastas só pode ser comprovada pelo tempo. O modelo "Hype Cycle" da empresa Gartner acompanha o processo de evolução das inovações tecnológicas e tem demonstrado que as aplicações práticas das inovações ficam abaixo das expectativas iniciais do "hype".

Ao estar na base para criação do Bitcoin, definida pelo seu misterioso criador Satoshi Namoto como "uma versão de dinheiro electrónico puramente pares entre pares, que permitirá que os pagamentos online sejam enviados de uma pessoa para outra sem passar por uma instituição financeira", a tecnologia blockchain criou expectativas muito altas para transformar a Internet. Todavia o Blockchain Hype Cycle da Gartner em 2023 conclui que após o declínio em 2020 o blockchain ainda estaria a ganhar tracção em algumas aplicações práticas, apesar das dificuldades tecnológicas ainda por resolver.

A maior expectativa criada pela tecnologia blockchain foi a descentralização da informação, que provocaria o aumento significativo da concorrência na oferta de serviços financeiros, reduzindo os custos das transacções, democratizando o acesso ao capital. Don e Alan Topscott, no seu livro "Blockchain Revolution", identificou oito funções dos serviços financeiros que seriam impactadas pelo blockchain, nomeadamente, Autenticação da Identidade e do Valor, Movimento do Valor, Guarda do Valor, Empréstimo do Valor, Transacção de Valor (mercados), Fundos de investimento (aplicações financeiras), Seguro e Gestão de Risco do Valor e a Contabilidade do Valor (governança corporativa).

O blockchain provocaria o fim das grandes instituições financeiras, cujo poder reside na híper centralização e burocracia que lhes permite extrair da economia rendimentos desproporcionais à sua contribuição para o produto económico final. O blockchain seria a solução tecnológica para eliminar a discriminação e a desigualdade criadas pelos excessivos lucros gerados pela actividade improdutiva das instituições financeiras. Contudo basta olharmos para os extraordinários resultados financeiros da Banca e Seguros em 2023, para percebermos que essa promessa está muito longe de ser realizada. Pelo contrário, a maior instituição de gestão de activos financeiros do mundo, a BlackRock, decidiu lançar um produto financeiro associado ao Bitcoin para permitir aos clientes com grande apetite pelo risco ganharem algum dinheiro.

O governo angolano proibiu recentemente a mineração, uma actividade específica da tecnologia blockchain. É o processo pelo qual os servidores distribuídos de uma rede blockchain chegam a consenso e concordam de forma automática sobre quem inequivocamente detém a chave do bloco criptografado e ganha o direito de receber a remuneração em activo/criptomoedas que podem ser guardadas, transaccionadas e trocadas de forma descentralizada, livre, segura e anónima na internet sem a intervenção de terceiros.

Sem regulamentação apropriada a mineração de activo/criptomoeda é um terreno fértil para actividades ilegais, fraudes e esquemas de investimento em pirâmide, onde a contribuição dos últimos accionistas remunera os lucros dos primeiros. O esquema de pirâmide funciona até que mais ninguém acredite e compre, ficando interrompido o fluxo do dinheiro de baixo para cima o que causa o desmoronamento da pirâmide, ficando os últimos participantes com todas as perdas. As fraudes em startups de blockchain têm causado pequenas perdas aos fundos de capital de risco, mas tragédias insuperáveis e perdas financeiras irrecuperáveis aos pequenos investidores que apostam, por vezes, as poupanças de uma vida.

Leia o artigo integral na edição 767 do Expansão, de sexta-feira, dia 15 de Março de 2024, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)