Lixo a céu aberto na periferia de Luanda reflecte exclusão social
Luanda é uma cidade de contrastes. De um lado, avenidas limpas após a passagem dos camiões da Elisal. Do outro, ruas estreitas de terra batida, onde o lixo se acumula nas esquinas. Contraste que certifica a desigualdade que separa o centro urbano das periferias.
A exclusão social e a pobreza revelam-se não apenas nos indicadores económicos, mas também no próprio chão que se pisa. Enquanto o centro da cidade apresenta uma imagem limpa e organizada, os bairros periféricos enfrentavam diariamente a ausência de serviços básicos, como a recolha regular de resíduos sólidos, como constatou a expansão numa ronda sobre a recolha de lixo na periferia de Luanda.
Nos bairros de terra batida, a população não tem alternativa senão depositar o lixo na rua. Sacos plásticos, restos de comida e entulho acabam espalhados em locais improvisados, transformando ruas em locais autênticos no céu aberto. A situação agrava-se porque os conteúdos disponíveis são colocados apenas junto às estradas principais.
Assim, os agentes de coleta limitam-se a retirar os resíduos dos contentores, deixando para trás o lixo acumulado fora deles. Luísa João, moradora do bairro Golf2, no município do Kilamba Kiaxi, explica a luta que a população trava para lidar com o lixo que produz diariamente.
"Aqui não temos onde colocar o lixo. Os homens da Elisal não entram nas nossas ruas. Somos obrigados a deixar os sacos em qualquer canto, e depois os cães espalham tudo. O cheiro é insuportável e as crianças brincam no meio disso."
O testemunho de Luísa reflete a realidade de muitos bairros periféricos de Luanda, onde a ausência de recolha regular de resíduos sólidos agrava os problemas de saúde pública e é uma aliança na propagação de surtos de diarreia e malária. No bairro Boa Esperança, pertencente ao município de Cacuaco, o cenário é semelhante.
Montes de lixo acumulam-se junto às casas dos moradores e, como forma de reduzir a quantidade, a população recorre à queima de resíduos, de forma organizada, três vezes por semana, provocando poluição ambiental. A prática, embora nociva, é encarada como normal pelos habitantes, que afirmam não ter outra alternativa para se livrarem do lixo.
Contentores longe da porta
Tito Carlos, residente há mais de 15 anos no bairro Boa Esperança, explica que a situação se torna ainda mais crítica durante a época das chuvas, quando as doenças proliferam de forma mais agressiva. "O mais caricato é que os homens da Elisal só retiram o lixo dos contentores colocados à beira da estrada, mas não entram no bairro", denuncia o morador, que apela às autoridades competentes para que intervenham com urgência.
A Empresa de Limpeza e Saneamento de Luanda (Elisal) nega a acusação e explica que muitos moradores rejeitam a colocação de contentores de lixo perto das suas casas. Segundo a empresa, quando os contentores são instalados nas imediações das residências, acabam frequentemente vandalizados.
"Só colocamos os contentores à beira da estrada devido à resistência de muitos moradores. A título de exemplo, no município de Hoji-Ya- -Henda, os munícipes retiraram o contentor e colocaram-no novamente junto à estrada", afirmou Nelson Cantos, diretor de Marketing e Comunicação da Elisal. Quanto ao plano de recolha de lixo porta a porta, Nelson Cantos adiantou que a Elisal já iniciou o processo no município do Camama.
No entanto, anuncia-se que a implementação será feita de forma gradual, tendo em conta a forma como os municípios foram estruturados. De lembrar que a Elisal é responsável pela recolha de lixo em 12 municípios da província de Luanda, nomeadamente: Ingombota, Rangel, Maianga, Cazenga, Kilamba Kiaxi, Cacuaco, Sambizanga, Samba, Talatona, Mussulo, Hoji-Ya-Henda e Camama. De acordo com os resultados do Censo 2024, registou-se um aumento no número de contentores de lixo instalados nas ruas, passando de 19,2 em 2014 para 25,2 em 2024.
No que se refere ao lixo depositado ao ar livre, obteve-se uma redução, em 2014 representou 69,7, enquanto em 2024 baixou para 52,5. Relativamente às queimadas, em 2014 o país registrou 3,2. Já em 2024 esse número subiu para 9,8, evidenciando uma tendência preocupante.
Lixo como fonte de sustento
Em meio às dificuldades financeiras e à falta de oportunidades, um número crescente de adolescentes abandona a escola para procurar sustento nos lugares onde o lixo se acumula.
No local, eles passam horas vasculhando resíduos em busca de materiais recicláveis que possam vender, garantindo algum dinheiro para ajudar suas famílias. A realidade desses jovens é marcada por riscos constantes à saúde e à exposição a substâncias tóxicas...











