Confiança dos empresários e gestores estagnou no nível mais baixo em 4 anos
Entre os 7 sectores alvo deste inquérito do INE, três viram a confiança cair. O turismo é um dos sectores onde a confiança perdeu terreno, o mesmo acontecendo com a comunicação. Isto num período em que o INE pôs a economia a crescer 5,7%, o que contrasta com as perspectivas menos optimistas dos empresários.
O Indicador de Clima Económico (ICE), que mede a confiança dos empresários sobre a evolução da economia nacional no curto prazo, estagnou no IV trimestre de 2025, ao fixar-se nos 4 pontos, os mesmos registados no III trimestre do mesmo ano. Ainda assim, caiu 1 ponto face ao período homólogo, mantendo-se no nível de confiança mais baixo desde o IV trimestre de 2021, de acordo com cálculos do Expansão com base no Inquérito de Conjuntura às Empresas do Instituto Nacional de Estatística (INE).
A confiança dos empresários estagnou em baixa precisamente num trimestre em que, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, a economia cresceu 5,7%, o segundo melhor desempenho dos últimos dez anos nos últimos três meses de um ano. Um crescimento impulsionado, sobretudo, pelo crescimento de 7,3% do sector não petrolífero, já que o sector petrolífero registou uma contracção de 1,2%. Por outro lado, no mesmo período, a taxa de desemprego desceu para 20,1%, um nível significativamente inferior aos 30,4% registados no período homólogo, segundo a metodologia anterior, e também abaixo dos 29,6% observados no terceiro trimestre.
Perante estes indicadores macroeconómicos positivos, vários especialistas questionam sobre o que pode explicar o cepticismo dos empresários num contexto de melhoria do desempenho económico. Na prática, o ICE avalia as expectativas dos empresários (confiança ou pessimismo) sobre a evolução da economia no curto prazo.
Os actuais 4 pontos do ICE correspondem à diferença entre as avaliações positivas e negativas dos empresários sobre as perspectivas de evolução da economia angolana. Ou seja, a percentagem de empresários que têm perspectivas positivas sobre a evolução da economia nacional no curto prazo excede em 4 pp. a percentagem dos que têm expectativas negativas.
No inquérito, os responsáveis das empresas são convidados a emitir opiniões sobre variáveis como acesso ao crédito bancário, excesso de burocracia e regulamentação estatal, insuficiência da procura, taxa de juro, ruptura de stocks e outras limitações que condicionam a actividade empresarial.
Turismo foi o que mais perdeu terreno
Entre os 7 sectores alvo deste inquérito do INE, três viram a confiança cair no último trimestre de 2025. O turismo foi o sector que apresentou o nível mais baixo de confiança, fixando-se nos 2 pontos, e também o que registou a maior queda face ao período homólogo, com uma redução de 16 pp.
As empresas do sector mostram-se menos confiantes devido ao quadro regulamentar, à insuficiência da procura, às dificuldades financeiras, aos preços de venda e à escassez de pessoal com formação adequada, factores que continuam a limitar o desempenho dos operadores.
Segue-se o sector da comunicação, que recuou 12 pontos percentuais, passando de 30 pontos em 2024 para 18 pontos no final do ano passado. Ainda assim, continua a ser o sector com o nível de confiança mais elevado.
Entretanto, o relatório do INE sobre as Contas Nacionais, que contempla a publicação do crescimento da economia, parece contrariar aquela que é a opinião dos gestores.
Isto porque foi o sector cujo PIB mais subiu no IV trimestre do ano, com uma expansão homóloga de 65,7%, mas, curiosamente, apesar do forte crescimento do sector neste período, a confiança nos empresários do sector desceu bastante.
Também o comércio registou um recuo, fixando-se nos 13 pontos, abaixo dos 14 registados no final de 2024, o que representa uma queda homóloga de 1 pp.
Apesar de menos empresas reportarem constrangimentos no desenvolvimento das suas actividades, persistem dificuldades financeiras, excesso de burocracia e regulamentação estatal, in suficiência da procura e pressão sobre os preços como os principais entraves no sector. Já os transportes foi o sector onde a confiança no seio dos empresários e gestores mais cresceu, ao passar de 1 para 17, um aumento de 16 pp.
Seguido da indústria extractiva que subiu 3 pp. para 5 pontos, e da construção que passou de 2 para 4 pontos no IV trimestre. Este é também o segundo ano consecutivo que este sector registou um nível positivo de confiança, já que entre 2011 e 2023 os empresários eram pessimistas quanto às perspectivas do sector.
Ainda assim, longe vão os tempos em que o sector da construção apresentava um nível de optimismo muito perto dos 60 pontos, tal como registado em 2008.
A indústria transformadora, por sua vez, estagnou nos 5 pontos em termos homólogos. O INE refere que diminuiu o número de empresas que enfrentaram constrangimentos no desenvolvimento das suas actividades.
Ainda as sim, persistem vários entraves no sector, sendo a escassez de matérias-primas, a falta de água e energia, as frequentes avarias mecânicas nos equipamentos, o excesso de burocracia e as dificuldades financeiras apontados como os principais problemas.
Para o director-geral da Fabri metal, Luís Diogo, a quebra do optimismo resulta da percepção criada no quarto trimestre de que haveria uma melhoria que acabou por não se confirmar. "Daí estarmos cépticos", afirmou.
Comparando com o período homólogo, Luís Diogo sustenta que o sector está em pior situação. "Embora se vislumbrem melhorias pontuais face ao período eleitoral que se avizinha, estruturalmente está claramente pior. Continuamos com níveis de competitividade muito aquém do que seria expectável", concluiu.
Edição 866 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Março de 2026











