Valorização do ouro ajuda BNA a financiar parte do défice de 2025
O banco central "esfregou as mãos de contente" com a valorização do ouro nos mercados internacionais já que, desta forma, mitigou o impacto dos empréstimos a que foi "obrigado" a fazer ao Governo para financiar o OGE. Valorização do metal precioso também impediu desvalorização do Kwanza.
A carteira de ouro monetário que faz parte das reservas internacionais sob gestão do Banco Nacional de Angola (BNA) valorizou 61% para quase 2,3 biliões Kz entre Dezembro de 2024 e Novembro de 2025, de acordo com cálculos do Expansão com base nas estatísticas monetárias e financeiras do banco central. Trata-se de uma valorização de 872,2 mil milhões Kz (cerca de 800 milhões USD) em apenas 11 meses, que é equivalente a 59% dos 1,5 biliões Kz (1.600 milhões USD) que o BNA emprestou ao Governo entre Janeiro e Novembro.
A incerteza que se viveu em 2025, potenciada por questões geopolíticas e a guerra das tarifas dos EUA - que abalou o comércio mundial - empurrou os investidores para portos mais seguros, para aquilo que são denominados os investimentos de refúgio, no qual se insere o ouro. Esta é a causa para que este metal tenha brilhado no ano passado como o activo mais seguro do planeta.
Se no caso de Angola as consequências da incerteza que pairam no mundo foram sentidas nas receitas do Tesouro - que afundaram devido à queda do preço do barril de petróleo - mas também no crescimento das taxas de juro da dívida soberana - uma boa parte da dívida angolana está assente em taxas de juro variáveis - aumentando os gastos com o serviço da dívida externa, o mesmo não se pode dizer em relação ao ouro, que já vale 16% das reservas internacionais angolanas, o que contrasta com os 10% de 2024, ou os 8% de 2023.
Este crescimento do valor das reservas de ouro monetário em cerca de 800 milhões USD acabou por impedir o afundanço das reservas internacionais geridas pelo BNA, mesmo depois de o banco central ter emprestado até Novembro cerca de 1.600 milhões USD ao Governo.
O banco central apenas publicou dados até Novembro, pelo que não foi possível apurar se em Dezembro acabou por atingir os 2.000 milhões USD que o Governo inscreveu no OGE como o dinheiro que o BNA lhe iria emprestar o ano passado. Mas o que é certo é que o banco central financiou parte do défice orçamental registado em 2025 que, de acordo com dados do Governo, terá sido de 3,9 biliões Kz, mais do dobro dos 1,5 biliões Kz previstos, devido ao "aumento das despesas com juros da dívida em relação às estimativas iniciais", bem "à reforma contida dos subsídios aos combustíveis", conforme revela o relatório de fundamentação do OGE 2026.
A lei do banco central permite estes empréstimos, desde que não ultrapassem o equivalente a 10% das receitas correntes do ano anterior, mas coloca como condição a obrigatoriedade de essa divida ter de ser saldada em cash até ao final do exercício financeiro em que é concedido o financiamento. Mas, "queimado" com as dificuldades registadas no final de 2024 para cumprir com as suas obrigações (que obrigou a recorrer a emprésti mos a um ano com taxas de juro exorbitantes próximas dos 10,0%), o Governo inscreveu no Orçamento Geral do Estado de 2025 um artigo que referia que o empréstimo a garantir no ano passado junto do BNA pudesse ser pago em títulos de dívida, o que põe em causa, segundo especialistas, a lei do banco central, como também faz xeque-mate à independência da instituição consagrada na Constituição.
Assim, os empréstimos do banco central ao Governo são "uma prerrogativa que a lei prevê", mas "não são uma boa prática", admite o economista e gestor Álvaro Mendonça em declarações ao Expansão.











