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O reino Dolce & Gabbana

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De um lado um sir chamado Elton John, com as estrelas Madonna, Victoria Beckham e Ricky Martin a apoiá-lo na sua indignação por terem chamado, indirectamente, "sintético" ao seu filho. Do outro, uma dupla de estilistas italianos, Domenico e Stefano, de apelido, respectivamente, Dolce e Gabbana, os tais de quem proveio o título de "sintéticos" atribuído às crianças geradas in vitro ou dentro de uma barriga de aluguer - o filho do pai da música Nikita está entre estes. Está visto que só podia dar confusão. Será caso para se temer pelo futuro desta empresa no ano do seu 30.º aniversário?

 

A dupla de estilistas italianos agora em crise de notoriedade criou a sua casa de moda em 1985, dando-lhe os seus apelidos: Dolce & Gabbana.

De um show destinado a novos nomes do mundo da moda italiana, deram, em 30 anos, o salto para detentores de uma marca com carisma mundial, à qual já se associaram equipas de futebol como o AC Milan, estrelas como Madonna e empresas como a Motorola. A Dolce & Gabbana (D&G) tornou-se numa das líderes mundiais no sector dos bens de luxo, produzindo e distribuindo roupa de alta qualidade, bens de pele, calçado, acessórios, joalharia, relógios e, ainda, sob licença, produtos de beleza e perfumaria.

Ao longo dos anos, os clientes habituaram-se a ver este logo noutros produtos, designadamente o Motorrazr V3i Dolce & Gabbana, telefone da Motorola 'vestido' pelos italianos com ouro e prata.

Há dias, tanto glamour chocou de frente com o apelo de um notável ao boicote aos produtos da companhia. Elton John não gostou de ouvir o adjectivo "sintético" relacionado com os seus filhos. E vai daí apelou a que não se comprassem mais produtos da empresa de Milão.

Ao sir, políticos italianos, compatriotas de Domenico Dolce e Stefano Gabbana, chamaram talibã. Os designers designaram-no de "fascista". Elton John até acabou por ser apanhado, dias depois, a entrar em casa com um saco de compras da Dolce & Gabanna, o que, ainda que não contrarie o seu apelo se este for levado à letra - nunca mais vestirei roupa da Dolce & Gabbana não significa "nunca mais usarei um saco daqueles dois italianos" -, não deixa de ser um contra-senso.

Tal como o é lembrar que, em 2006, Gabbana desvendou que tinha perguntado a uma amiga se seria mãe de um filho seu, por inseminação artificial. Tantos motivos de interesse e controvérsias neste argumento já dariam um bom episódio de Jikulumessu.

O escândalo - algo pífio, há quem diga, enquanto outros defendem ser justificado, pela forma insultuosa como Domenico falou da criação in vitro - começou quando, numa entrevista dada pela dupla de estilistas à revista Panorama, Domenico respondeu à pergunta do que achava sobre a família: Nós opomo-nos às adop- ções por gays. A única família é a tradicional. Crianças geradas pela química são crianças sintéticas."

Estalou então o drama novelesco. Elton John, de 67 anos, casado com David Furnish - e com dois filhos nascidos por fecundação in vitro -, reagiu na sua conta de Instagram.

E, além de expressar a sua indignação, aproveitou para dar uma alfinetada naquilo que mais poderá doer a Domenico, a sua casa de moda: "Como é que vocês se atrevem a referir aos meus lindos filhos como 'sintéticos'? A vossa forma arcaica de pensar não está em sintonia com os tempos, tal como a vossa moda."

Recebeu de volta do casal Domenico e Stefano um "fascista", por ter pedido o boicote, designadamente nas suas contas Instagram e Twitter, com um #boycottdolcegabbana ('Boicote à Dolce & Gabbana'). Mas tivesse a D&G como único problema o cantor britânico. Também no Twitter, entre outros movimentos, criou-se a hashtag #dropDandG, ou seja, "deixem cair o D e o G", surgindo mais um nome sonante a aderir, Ellen Degeneres, ou, na versão da rede social, 'Ellen _e_eneres'.

E a agência internacional que detém as contas da Puma e eBay (entre muitas outras) a DigitasLBi, mudou de nome durante uma semana, para 'iitasLBi'. Nesta guerra de redes sociais, Stefano Gabanna apelou à lembrança do Je Suis Charlie - movimento iniciado aquando do atentado à redacção do jornal satírico francês Charlie Hebdo -, escrevendo na sua conta do Instagram Je Suis D&G. De pouco valeu, pelo menos no imediato, o comunicado de Dolce e Gabbana garantindo que não pretendiam fazer juízos de valor sobre a escolha das restantes pessoas.

"Sou siciliano e cresci numa família familiar constituída por uma mãe, um pai e crianças", disse Dolce no comunicado, garantindo: "Estou muito consciente do facto de que há outros tipos de famílias, tão legítimas quanto as que eu conheci. Mas na minha experiência pessoal, a família tem uma configuração diferente. […] Esta é a realidade em que eu cresci, mas não implica que não entendo as restantes. Falei da minha visão pessoal, sem julgar as escolhas e decisões das outras pessoas."

Quem sabe se, no meio deste turbilhão, a dupla de estilistas não estará já com saudades dos tempos em que "apenas" era acusada de evasão fiscal - há dois anos foi condenada em tribunal por não ter declarado ao fisco italiano mais de 1.000 milhões USD de receitas.

Ou de quando ambos conviveram com outros ataques também nas redes sociais, igualmente com crianças como tema, mas então por terem lançado um perfume destinado aos bebés, quase se esgotando os adjectivos àqueles que perguntavam como poderá alguém querer mudar o aroma natural da pele de um bebé através de um perfume.

Crise dos 30

Tanto barulho incómodo no ano do 30.º aniversário não seria o foco que os estilistas pretenderiam para a sua marca. Com sede em Milão - num edifício de quatro pisos inaugurado em 2006 e que, entre outros materiais de elite, expõe a pedra branca da Namíbia -, a companhia alongou-se pelo seu país e pelo mundo, com lojas coordenadas a partir daquela cidade italiana, de Nova Iorque, São Paulo, Hong Kong e Xangai. Importante no seu crescimento, o segmento de luxo chinês levou a marca a lançar-se ali em 2005 com a primeira loja-bandeira, em Hangzhou, perto de Xangai, onde mais tarde abriu um Martini Bar, réplica da exclusividade do ponto de encontro de final de dia existente na cidade de Milão.

Na capital do chique italiano podemos ainda optar por um café ou um cocktail, ou até desfrutar de uma refeição no Gold Restaurant com o estilo e ostentação da companhia, com mármores rosa, soalho de carvalho e muitos espelhos. Como noutros relatos de história, podemos iniciar esta estória com um "tudo começou"…

Foi em Outubro de 1985, num evento destinado a novos talentos, que dois estilistas mostraram a sua colecção na cidade europeia da moda, na Milano Collezioni. E em Março seguinte surgiram com a sua primeira colecção, intitulada Real Women ('mulheres verdadeiras').

Via Santa Cecilia, 7 ficou como primeira morada de uma loja da Dolce & Gabbana. Em poucos anos expandiram a sua presença em shows de moda de Tóquio (Abril de 1989) e Nova Iorque (Abril de 1990), com uma colecção masculina, outra de lingerie e ainda uma de praia apresentadas, pelo meio. Também em 1990, abriu a sua loja na Broadway, em Nova Iorque.

Gravatas e roupa de praia para homem também se juntaram ao portefólio, no qual houve roupa para noivas a partir de 1992 (só duraram até 1998), ano do lançamento dos primeiros perfumes.

Grande notoriedade surgiu oito anos após a criação da Dolce & Gabbana, quando vimos o seu trabalho na digressão mundial de Madonna, para a qual foram produzidas 1.500 peças pela dupla de estilistas - em 2000, vestiu-a para o álbum Music, desenhando ainda dois palcos com estilo western, o escolhido pela artista para o seu oitavo álbum, e em 2009 e 2010 voltou a convocá-la' para protagonizar campanhas publicitárias, lançando ainda a linha de óculos de sol MDG… vermos agora Madonna agora do lado de Elton John contra Domenico e Stefano dá uma perspectiva da bronca em que os italianos se colocaram com as declarações sobre crianças "artificiais".

Antes de tudo isto, em 1999, também a tour de Whitney Houston vestiu D&G, três anos antes de Kylie Minogue se relançar mundialmente com a digressão Fever, vestida e com acessórios da Dolce & Gabbana.

Outras estrelas têm surgido aliadas às criações italianas, entre elas a modelo Naomi Campbell, com quem a D&G lançou uma colecção de T-shirts com 14 versões diferentes, cada uma com fotografia feita por um fotógrafo famoso e vendidas em exclusivo nas boutiques de Londres, Milão, Moscovo (o apetite pelo luxo na Rússia levou à inauguração da loja em 2010), Nova Iorque, Paris, Pequim e Xangai.

Lembra-se dos fatos de Messi na Bola de Ouro?

A ligação ao show business tem sido nota forte da companhia, tal como ao mundo do futebol profissional.

Em 2004, juntou 44 futebolistas, três equipas e dois treinadores para o livro Calcio, onde todos aparecem com roupas da Dolce & Gabbana, em fotografias a preto e branco. Em 2008, a dupla de estilistas vestiu os jogadores do AC Milan e, dois anos depois, investiu na associação ao clube inglês Chelsea - criou os fatos oficiais e o Dolce & Gabanna lounge no estádio Stamford Bridge - e a Leo Messi.

O 'mago' argentino passou a vestir D&G em ocasiões oficiais e quem se recorde do fato às bolas brancas que usou quando subiu ao palco para receber a quarta bola, em 2013, entenderá agora a origem de tão polémicas roupas que Messi já nos habituou a usar naquela cerimónia.

Para o Mundial que se jogou aqui perto, na África do Sul, a griffe preparou um álbum com os craques da selecção transalpina. Para homenagear este mesmo momento grande do futebol mundial no nosso continente, do estirador da companhia saiu uma linha de roupa interior masculina destinada aos clientes por todo o mundo.

Nota ainda para as duas rodas, especificamente o 'Giro', a icónica volta a Itália em bicicleta, na qual a camisola rosa da edição de 2008 foi uma criação da D&G. Se na promoção diversificou, nos produtos e na sua oferta aos clientes, também.

Lá para casa pudemos adquirir produtos a partir de 1994, quando surgiu a Dolce & Gabbana Home Collection. E também lá em casa, ou no escritório, começámos a ter a companhia a partir do arranque do século, via www.dolcegabbana.it, e em 2009 a empresa passou mesmo à venda online, em www.dandgstore.com, de relógios (estes chegaram aos pulsos dos clientes em 1999), jóias, roupa interior e para a praia e outros produtos para homem e mulher, disponível num total de 31 países.

Cimentada a posição no mercado, a companhia assumiu para a estação Outono/Inverno 2000/2001 a produção e distribuição de colecções até aí licenciadas a terceiros, em roupa, cachecóis e gravatas. A expansão levou à abertura de uma nova fábrica em Florença no ano 2000. No ano seguinte, mais diversidade nas prateleiras, com colecção de criança. Este é o mundo da Dolce & Gabbana.

Aguardemos para ver como termina esta 'novela' anglo-italiana e se a Dolce & Gabbana vai sofrer com o pedido de boicote dirigido por Elton John aos fãs e apoiado por outros músicos internacionalmente reconhecidos. Ou se, pelo contrário, a casa de moda até ganha com a notoriedade extra, na senda do bem ou mal, o que interessa é que falem de mim.

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