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Gestão

Porque o sistema falha?

ABC DA INSOLVÊNCIA

A diferença entre recuperar e perder valor não está apenas nas soluções adoptadas, está no momento em que se decide actuar e enquanto esse momento continuar a ser adiado, o sistema não estará apenas a reagir tarde, estará, activamente, a destruir valor que ainda poderia ser recuperado.

Uma parte significativa do crédito concedido às empresas em Angola não falha no incumprimento, falha antes disso. O incumprimento é apenas o momento em que o problema se torna visível, o que significa que, quando uma empresa chega a esse ponto, na maioria dos casos, já perdeu capacidade operacional, o valor económico deteriorou-se e a margem de recuperação é reduzida, isto é, o dano já está feito. O problema não é, por isso, o incumprimento, é o momento em que se decide agir. Se os sinais de dificuldade são conhecidos e progressivos, a questão que se impõe responder é simples: porque é que a intervenção só acontece quando já é tarde? A resposta não está na ausência de enquadramento legal, nem na falta de instrumentos. O problema é mais profundo e está na forma como o sistema de crédito está organizado e nos incentivos que o sustentam. Na prática, o acompanhamento das empresas encontra-se fragmentado entre as áreas comerciais, de risco e de recuperação. As áreas comerciais mantêm a relação com o cliente, as áreas de risco monitorizam indicadores e as áreas de recuperação actuam quando o incumprimento já ocorreu. Entre estas funções existe, muitas vezes, um vazio que é preenchido pelo pré--incumprimento, onde não existe responsabilidade clara nem decisão efectiva. Neste espaço, os sinais de alerta são conhecidos, mas são frequentemente ignorados, e intervir cedo implica assumir um problema antes de ele ser evidente, e isso não é, na prática, incentivado. Pelo contrário, o modelo tende a empurrar a decisão para mais tarde, adiando a intervenção até que o problema deixe de poder ser ignorado. Este não é um problema de competência, é um problema de modelo. Um modelo que, na prática, penaliza a antecipação e recompensa a inércia. O resultado é previsível e, consequentemente, quando a intervenção finalmente ocorre, já não se trata de recuperar, mas de gerir perdas e o foco deixa de estar na preservação de valor para passar a estar na minimização de danos. O pré-incumprimento continua, assim, a ser tratado como uma zona sem dono. Não porque faltem sinais, mas porque falta decisão e sem decisão, qualquer sistema, por mais sofisticado que seja, torna-se inevitavelmente reactivo. Mudar este padrão exige mais do que instrumentos técnicos. Exige uma alteração clara de responsabilidade e de incentivos, exige reconhecer que o momento de intervenção faz parte da gestão de crédito e não apenas da gestão do incumprimento. A diferença entre recuperar e perder valor não está apenas nas soluções adoptadas, está no momento em que se decide actuar e enquanto esse momento continuar a ser adiado, o sistema não estará apenas a reagir tarde, estará, activamente, a destruir valor que ainda poderia ser recuperado.

*Rui de Carvalho Afonso, Director geral AFRJ Consulting

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