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Opinião

A mecânica das previsões do crescimento económico (II)

Análise

Na primeira parte deste artigo, dissertei sobre algumas das razões que podem originar as disparidades das previsões do crescimento do PIB entre as realizadas pelo executivo nos seus documentos oficiais e aquelas feitas pelas diversas organizações internacionais.

 

Fiz referência de, num primeiro momento, a diferença residir na parametrização dos softwares utilizados e posteriormente da omissão de algumas variáveis qualitativas a introduzir no modelo de previsão, como por exemplo a variável corrupção.

Nesta segunda parte, destaco duas outras razões que podem estar na origem destas discrepâncias de dados relacionados as previsões. Primeiro e a mais importante no ponto de vista académico, sobretudo no campo da pesquisa e investigação científica, é a escolha dos pressupostos teóricos que sustentam o modelo.

Em segundo, trata-se de uma questão um tanto ou quanto sensível de abordar mas que ocasionalmente faz parte de modus operandi de algumas organizações de rating. Trata-se às vezes de uma manipulação premeditada das previsões de crescimento de um determinado país com objectivos de produzir resultados positivos ou negativos que visam estimular ações dos governos que podem afectar a estabilidade macroeconómica.

É o lado obscuro deste instrumento ao serviço da economia, que é às vezes usado com a intenção de criar falsas expectativas induzindo os governos e outros agentes económicos a tomarem decisões erradas cujo objectivo é o de obter benefícios por parte destas organizações ou mesmo de grupos de especialistas que o fazem muitas vezes aproveitando-se do prestígio internacional de que estas entidades gozam. Para clarificar um pouco mais o processo de construção dos modelos, é imperativo que se faça uma breve descrição sobre os modelos preditivos. Estes modelos podem ser conjunturais e estruturais.

Os modelos estruturais são usados para se efectuar previsões de médio prazo (de 2 a 5 anos) ou longo prazo (5 a 10 anos). Por exemplo, fazendo um enquadramento contextual, as projecções do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2012-2017 enquadram-se no modelo previsional de médio prazo. No entanto, os modelos preditivos conjunturais são geralmente os mais utlizados para prever quanto é que uma economia vai poder crescer durante um exercício económico, isto é, de um ano.

Estes modelos traduzem as flutuações do PIB de acordo com a conjuntura económica expressa por um conjunto de condições verificáveis, e apresentam as seguintes características: são essencialmente modelos de procura - isto é, o PIB é nestes modelos calculado em função dos elementos de procura final, tal como a evolução dos níveis de consumo, investimentos, gastos públicos e exportações líquidas ou a partir da evolução dos rendimentos (salários, lucros, juros, impostos etc.).

Para que produza resultados mais ou menos fiáveis, um modelo de previsão terá de ser suficientemente desenvolvido, de modo que através dele seja esclarecido o comportamento dos principais agregados da economia sem que no entanto perca a sua operacionalidade. Isto quer dizer que o tipo de variáveis e o número de equações a integrar no modelo devem ser definidos e escolhidos de forma a garantir que por um lado nele se espelhe o funcionamento dos aspectos fundamentais da economia e, por outro, excluir-se as relações cujo comportamento seja duvidoso ou que acarretem uma complexidade injustificada do modelo.

Entra-se então a partir daqui no centro da questão: tem que ver com a selecção e a escolha dos pressupostos teóricos a ter em conta na construção do modelo. Para a construção de um modelo de previsão económico, é necessário, antes de mais, conhecer a teoria económica que lhe vai servir de base. Ora, a escolha dos pressupostos teóricos depende muito da inclinação doutrinal e ideológica dos economistas que sustentam o Governo: assumem-se como clássicos, neoclássicos, keynesianos ou marxistas...? Esta é de resto uma questão muito interessante que pode levantar outro debate e que gostaria ver um dia ser discutida.

A verdade é que a determinação dos pressupostos teóricos é que vai definir o tipo de variáveis e equações que irão ser introduzidas no modelo. Como se pode depreender, um modelo concebido de acordo os pressupostos teóricos clássicos ou neoclássicos produzirá, como é óbvio, resultados diferentes em relação ao que foi concebido de acordo os pressupostos económicos keynesianos.

As previsões têm como objectivo proporcionar ferramentas aos tomadores de decisão para os auxiliarem a exercitar as escolhas de medidas de políticas e medir as consequências (negativas ou positivas) das suas opções; mas elas são também uma importante fonte de informação por se constituírem como um instrumento de análise de conjuntura para orientar especuladores e lobistas (intermediários de dívida externa dos países) do sector financeiro internacional. É neste contexto que surgem neste processo importantes actores que nunca podem ser ignorados quando se trata de estabelecer as previsões de crescimento económico.

Trata-se das agências de rating, a que acima fiz referência. Estas agências, assim como diversas organizações internacionais, tendem a ter um comportamento que consiste em deslocar para posição subalterna as decisões governamentais e modificam substancialmente o papel dos Estados. Um caso paradigmático é retratado por John Perkins, um activista americano na área do meio ambiente e culturas indígenas e também escritor, que relata num polémico livro, cujo título é Confissões de Um Assassino Económico, como se monta literalmente o endividamento dos que ele chama de "países politicamente frágeis".

O esquema consiste em estabelecer uma previsão sabiamente exagerada de crescimento económico, caso um país tiver a necessidade de investir grandes somas em infra-estruturas. Com estas previsões fraudulentas de crescimento que tornam plausível a disponibilidade posterior de empréstimos, as empresas de rating e multinacionais com grande poder de influência negoceiam com os bancos e financiadores internacionais os empréstimos correspondentes, e os respectivos contratos de execução vão para estas mesmas empresas que ajudam a pressionar para a obtenção do empréstimo.

As empresas enriquecem os contratos (amealham algumas somas), o crescimento não ocorre, e o país ultrapassa a sua capacidade de endividamento. Entra então o segundo mecanismo, que é a renegociação de contratos de exploração de petróleo e outras riquezas, aproveitando-se da fragilidade financeira gerada. Como bem se diz na nossa língua nacional quimbundo: 'Jikulumessu!'.

Manuel Alberto, Economista e consultor empresarial

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