Petrodependência
O paradoxo angolano mantém-se intacto. O petróleo continua a financiar praticamente tudo, enquanto a diversificação económica permanece mais forte nos discursos, conferências e apresentações de PowerPoint do que nas estatísticas das exportações. Por isso, antes que a melhoria cambial seja interpretada como prova definitiva de uma transformação estrutural da economia, convém recordar uma verdade simples: os dólares continuam a chegar pelos mesmos poços de sempre.
Há notícias que merecem ser celebradas e esta é uma delas. Nos primeiros três meses do ano, as exportações angolanas cresceram 10%, mais 800 milhões USD, enquanto as importações avançaram apenas 2%. Traduzido para a linguagem do cidadão comum, entraram mais dólares do que saíram. E, num país onde durante anos o acesso a divisas é tratado como uma espécie de caça ao tesouro, isto justifica algum entusiasmo. Mas é precisamente nestes momentos que surgem os maiores riscos.
A história económica angolana está repleta de períodos de abundância seguidos de longas ressacas. Sempre que o petróleo oferece algum conforto, reaparece a tentação nacional de confundir receitas extraordinárias com riqueza permanente. É como ganhar um prémio inesperado e decidir que a melhor estratégia financeira é comprar uma televisão maior, um carro mais caro e adiar novamente as obras do telhado que ameaça cair ou das canalizações que estão a pingar.
O excedente externo é uma oportunidade. Pode servir para reforçar reservas internacionais, reduzir vulnerabilidades, financiar investimentos produtivos e criar condições para que sectores não petrolíferos finalmente ganhem dimensão. Ou pode simplesmente alimentar despesas de curto prazo, projectos de utilidade duvidosa e consumos que desaparecem tão depressa quanto chegaram os dólares que os pagaram.
O problema é que os números continuam a contar uma história pouco compatível com os discursos oficiais. Excluindo petróleo e minérios, Angola exportou apenas 179 milhões USD em mercadorias. E quando se olha especificamente para produtos agrícolas e florestais, o valor ronda os 500 mil USD. Sim, leu bem: meio milhão de dólares já com as vendas de madeira. É um valor tão reduzido que, estatisticamente, corre o risco de se perder entre as casas decimais das exportações petrolíferas. Nada disto retira importância ao sector agrícola nem ao seu contributo para o emprego e para o PIB. Produzir para consumo interno é importante mas exportar de forma consistente é outra conversa.
O paradoxo angolano mantém-se intacto. O petróleo continua a financiar praticamente tudo, enquanto a diversificação económica permanece mais forte nos discursos, conferências e apresentações de PowerPoint do que nas estatísticas das exportações. Por isso, antes que a melhoria cambial seja interpretada como prova definitiva de uma transformação estrutural da economia, convém recordar uma verdade simples: os dólares continuam a chegar pelos mesmos poços de sempre.
E enquanto isso acontecer, a abundância deve ser gerida com prudência e não com euforia. Porque, no fim das contas, uma economia diversificada não é aquela que fala muito de agricultura. É aquela que consegue exportá-la. E, pelos números disponíveis, ainda estamos muito longe de colher essa safra.














