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Opinião

Poupança

Editorial

O que quero dizer mesmo é que importar receitas dos países desenvolvidos para fazer crescer a nossa economia não vai resultar. É preciso começar por controlar os custos e, em vez de fazer relatórios com investimentos à frente, olhe-se primeiro para a poupança. É aí que tudo começa...

Há muitos anos, numa discussão com alguns economistas a propósito das receitas "milagrosas" mais adequadas para a economia de um país, defendia-se acerrimamente a teoria dos apertos como a mais adequada. Apertar a liquidez para controlar a inflação, apertar as reservas dos bancos para controlar o crédito e consequentemente a procura interna, apertas nas taxas aduaneiras para controlar o consumo, apertar nos salários para safar as empresas e segurar o emprego, apertar, apertar, apertar...

Já nessa altura, poucos é verdade, defendiam que essas eram medidas para melhorar o quadro macroeconómico de um país, mas que na verdade não contribuíam para o desenvolvimento económico. Ou seja, aplicavam-se aos países de média e alta renda em momentos de crise, mas que não serviam para os países em desenvolvimento. Estes precisavam de crescer a dois dígitos e, para isso, era necessário que houvesse dinheiro na economia, que as pessoas aumentassem rapidamente o seu poder de compra, que o foco devia estar na forma de aplicação e não na quantidade do investimento.

Grande parte desta minoria já dizia, na altura, que ao Estado cabia apenas a função de criar condições para que a economia funcionasse, nomeadamente existência de infraestruturas e condições básicas para os operadores económicos privados se sentirem confortáveis para desenvolver a sua actividade. Que isso dos programas prioritários, dos incentivos a esta ou aquela indústria, a esta ou aquela área da economia, devia ser uma decisão do mercado. Que o Estado sentado nas bancadas contribui muito mais para o sucesso da equipa, do que essa motivação de querer ser o ponta de lança e o melhor marcador do team.

No entanto, as instâncias internacionais que regulam a economia, por via dos créditos mais baratos que oferecem, sediadas em países desenvolvidos, assumiram como verdade esta teoria dos apertos quando intervêm nos países em desenvolvimento. O que até se entende, porque estão a querer garantir o retorno da massa. Mas quantas vezes isso resulta em crescimento para o país? Se resultasse, a Argentina era hoje o mais rico do mundo, tendo em atenção o número de vezes que estas instituições intervieram naquela nação desde os anos 80...

E criaram os mitos. A inflação não pode ultrapassar dois dígitos. Qual é o problema de um país ter uma inflação de 20% se estiver a crescer acima dos 10%, a desenvolver-se, onde grande deste acréscimo dos preços fica no próprio território, porque consegue ter uma máquina produtiva que garante a maioria do consumo da população? E que a população, apesar desta inflação, tem capacidade para manter o nível de vida, porque os salários acompanham os lucros das empresas, que também beneficiam com uma inflação alta.

O que quero dizer mesmo é que importar receitas dos países desenvolvidos para fazer crescer a nossa economia não vai resultar. É preciso começar por controlar os custos e, em vez de fazer relatórios com investimentos à frente, olhe-se primeiro para a poupança. É aí que tudo começa...