"A literatura, principalmente a que eu conheço no nosso País, é uma despesa"
Os versos de Elisângela Rita, que resultam de uma mudança importante na sua vida, estão em "46 Dias para o Mundo Novo & Poems to Survive Death", a sua mais nova recente obra literária, escrita em duas línguas e prefaciada pela professora Sílvia Ochôa, sob a chancela da Kacimbo Editora. Aproveitando o lançamento, o Expansão falou com a autora sobre a sua forma de olhar para a vida, as mudanças e diversas facetas que a sua personalidade e actividade encerra. A poetisa, a cidadã e a profissional misturam-se nos versos do seu livro.
Como avalia o ano de 2025?
Foi muito importante para a minha jornada como escritora, comecei o processo burocrático. A compilação já estava feita antes, mas sem revisão, sem edição, porque o escritor, na minha perspectiva, só quer escrever, não quer estar envolvido com a burocracia editorial. Então, avalio de forma positiva por ter tido a coragem de entregar a obra à indústria literária, o que me permitiu publicar agora em 2026.
É como se estivesse a entregar um filho aos cuidados de outrem?
Exactamente! É como se tivesse feito o nascimento e partilhar a criação, porque já não é somente meu. Dá-se o início de uma série de processos, entre bons e maus...
Vai publicar através da Kacimbo.A que se deveu a escolha?
A escolha da editora foi intencional. Lancei o meu primeiro livro com a editora Chiado, em Portugal, e só depois foi lançado e vendido no País. Desta vez, achei importante inverter o processo - primeiro fazer o lançamento com a editora local, na minha terra, para depois lançar fora.
Porquê?
Porque parece um detalhe, mas é completamente diferenciador: é uma obra angolana, feita por angolanos, para angolanos e em Angola.
A primeira obra a que se referiu é o "Coração Achado", de 2015, onde a temática era maioritariamente a poesia de reencontro. Nesta, intitulada "46 Dias para o Novo Mundo & Poems to Survive Death", que também é bilingue, qual é a temática?
Nesta obra, faço uma contagem regressiva para o culminar de uma fase. Foram 46 dias de desenvolvimento, ou seja, é o produto de um desafio a que me submeti. Durante esses 46 dias, escrevi um poema por cada dia. Era um poema e uma fotografiaindependentemente da inspiração ou da circunstância. No fim desses 46 dias, o dia zero, eu fiz uma grande mudança na minha vida. Foi como um processo de luto. Essa contagem regressiva ajudou-me a lidar emocionalmente com o que eu estava a viver na minha vida. Então os poemas não eram sobre a mudança, mas eram sobre o meu dia-a-dia durante a mudança.
Por que é uma obra em duas línguas diferentes?
Por necessidade! Parte da minha formação como mulher foi na África do Sul e algumas das emoções foram sentidas em inglês. Como não se traduz sentimentos, eis a razão... Não existe nenhum poema no livro que seja tradução!
No seu processo de escrita, como nasce um poema em si, de uma imagem, som ou apenas de um sentimento?
Depende da inspiração. Nalguns casos uma imagem, vista de uma praia, e isso depois ajuda-me a conectar com o que eu estou a sentir no momento, começando a nascer as primeiras palavras e o poema começa a ganhar vida. Noutros, o poema já existe dentro de mim e começo a dizer, fazer anotações ou a gravar no telefone, porque a ideia já cá está. Num terceiro cenário, que é como resposta a um evento, caso tenha acontecido algo em particular, sinto a necessidade de exprimir por palavras. Então o que a poesia faz para mim é ajudar a des... Como é que se diz?
Desanuviar... desconstruir?
Não. Desembaraçar conceitos, ideias e sentimentos. Muitas vezes, depois de escrever o poema, recuo. Outras, escrevo o meu "eu" do futuro, sem saber a razão de estar a escrever aquele poema. Já aconteceu, anos depois, ler um poema e dizer "uau, obrigado". Era isso que eu precisava de ler.
E se fizer um recuo aos seus primeiros escritos, como avalia o seu amadurecimento até aos dias de hoje?
Evoluiu no sentido de que estou mais consciente do meu processo criativo, já me entendo como escritora. Isso não foi sempre assim, pelo menos comigo, não me entendia como escritora ou como poeta. O título não cabia em mim, porque sentia que era muita responsabilidade. Agora já tenho coragem de dizer isso porque tenho obras publicadas com as minhas antologias. Falo em conferências, apresento-me na academia. Mas isso também é uma função que eu estou a desempenhar agor.
Quando é que se deve considerar que aquela pessoa é um escritor?
Um escritor é alguém que produz textos, obras escritas com bastante quantidade. É alguém que vive disso financeiramente no seu dia-a-dia. Acredito que alguém que escreva esporadicamente não deva ser considerada um escritor. Tem de haver muito investimento de tempo. Tem de ser algo que se vivencia.
Entre as várias actividades: formação em Direito, trabalhar em finanças, produzir eventos, como o Luanda Slam, apresentar o podcast e poetisa, como se define?
O único título que é meu é que eu sou poeta. É só isso. O resto são funções que eu desempenho e estas mudam, vão e vêem. É rentável? Não. Não é rentável.Não aconselho.















